Brexit


Ontem a atmosfera em Londres era otimista. Vi dezenas de pessoas na rua que, como eu, usavam o adesivo 'I'm in!' colado na roupa. O mercado financeiro estava confiante na vitória do Remain, e quando a contagem dos votos começou as 10 da noite tudo parecia encaminhado a nosso favor.

Aí eu acordei hoje.



Eu acordei hoje com a notícia de que a Inglaterra e o País de Gales, lugares que eu amo tanto, não querem mais brincar de União. A Escócia e a Irlanda do Norte tentaram nos ajudar, mas não foi o suficiente. Londres também votou para ficar, mas como a gente já sabe, Londres não reflete o restante da Inglaterra.

Processar essa informação é muito difícil, Estou trocando muitas mensagens com as amigas que moram aqui, e estamos todas arrasadas. Sinto-me enganada, traída, deslocada. Eu não apenas moro aqui, mas Londres é minha renda. Eu promovo essa cidade - e todo o Reino Unido - por que eu achava que não havia no mundo um lugar melhor, mais receptivo, mais cheio de misturas.

Desde o dia 5 de dezembro de 2008, quando cheguei, me senti em casa. Tanta gente me pergunta por que eu gosto tanto daqui, e essa sempre foi a minha resposta: eu me encontrei aqui. Infelizmente, hoje não é o que eu sinto.

Essa votação vai além das burocracias de deixar a União Européia, e mexem com o coração das pessoas que escolheram viver aqui. Até podem existir outros motivos para os britânicos terem votado Leave, mas todo mundo sabe que imigração era o pilar dessa campanha. Como me sentir bem vinda? Como ficar se mais de 50% da população prefere que eu vá?



Dispenso comentários falando que estou levando isso pro lado pessoal. Esse referendo sempre foi pessoal. Sempre foi nós contra eles. E gera algo muito pior que a desvalorização da libra: gera um momento de vitória para os extremistas de direita do mundo inteiro.

O que fazer?

Estávamos caminhando tão bem para um mundo globalizado, sem fronteiras, de oportunidades iguais. Onde a gente não precisa morar no lugar onde nasceu e onde podemos conversar com pessoas que vieram do outro lado do mundo. Mas nossos líderes falham em suas tarefas, e convertem a frustração da população em medo, gerando então o nós contra eles.

O futuro aqui é incerto. Tudo que eu investi em Londres, meu tempo, meu dinheiro, meu amor, parece não valer nada. O nó na garganta vira choro ao assistir o discurso vitorioso de um político nojento, que acusa imigrantes de extorsão no sistema de benefícios e engana os britânicos com números mentirosos.

O Reino Unido está fora. A Inglaterra está isolada. O Primeiro Ministro que usou esse referendo como massa de manobra deu um tiro no pé, renunciou. Pra ele nada muda. A Escócia deve ter novo referendo para independência (e dessa vez estou do lado deles). Apesar de na prática nada mudar nos próximos meses, nós imigrantes sabemos que muita coisa mudou.

Veja o que a minha amiga Liliana, que mora aqui há mais tempo que eu, também tem a dizer sobre isso. E aqui o que a Nathalia, que é casada com um inglês e está aqui como esposa (e não como europeia) tem a acrescentar.




Vem ser feminista comigo

Eu e a Renata estamos há 7 meses tocando o Conexão Feminista, e esse projeto me anima mais e mais a cada hangout. Cada vez que conversamos, seja entre nós mesmas ou com convidados (sabia que temos uma seção chamada Conexão Paralela?) me sinto mais inspirada e com mais vontade de continuar batalhando.

Então tive a ideia de fazer um vídeo colaborativo, com a participação de várias mulheres. Do que se trata: queremos que vocês mandem um vídeo pra gente, contando como foi que se descobriram feministas. Pode ser filmado com o celular mesmo, e é pra ser algo curto, de 2 minutos mais ou menos. Quando eu tiver vários depoimentos, vou colar tudo num vídeo só e colocar no nosso canal do YouTube.

Recebo mensagens de tanta gente falando que está adorando o Conexão, que acompanham nossos hangouts e postagens no Facebook, que acho que temos que abrir nossa plataforma e dar voz pra mais mulheres. Então, que tal? Topa?

Pra quem gostou da ideia, mande o vídeo para conexaofeminista1@gmail.com

Eslovênia


Quando cheguei de Barcelona, recebi um convite para ir para a Eslovênia numa 'blog trip' (eu já falei um pouco sobre o que é isso aqui e aqui) que aconteceria em poucos dias. A ideia a princípio não me animou muito: não apenas eu estava querendo ficar sossegada em casa com o Martin depois de 10 dias viajando por Barcelona, como também teria que desfazer alguns compromissos e agilizar uns trabalhos. Isso porque tenho uma outra viagem marcada no fim de junho (já planejada há meses, e dessa vez com o Martin!), o que me daria pouco tempo pra deixar a vida em dia pós Barcelona.

Mas o convite era tentador demais pra deixar passar, e também uma ótima oportunidade profissional. Afinal, foi pra isso que eu larguei o trabalho no escritório, não é mesmo? Dar uma chance pra vida de blogueira de viagem.

Lá fui eu com outros 5 bloggers para a Eslovênia. Uma programação intensa (como geralmente acontece em viagens desse tipo): muitas cidades, muitas atividades. Acordar cedo, dormir tarde, conhecer restaurantes, hotéis e prestadores de serviços. Muito tempo em uma van, indo de um lado pro outro.

Mas o resultado foi positivo. Não apenas me dei super bem com todos os outros blogueiros, como curti demais toda a viagem. Não esperaca que a Eslovênia fosse um país tão bonito, que oferece um gazilhão de atividades e atrações. Comi muito bem, vi paisagens maravilhosas (veja a hashtag #advnaeslovenia para ter uma ideia), fiz rafting, caminhadas e conheci pessoas muito gente fina. Estou cheia de ideias de posts, muitos vídeos e fotos para editar e com aquela sensação de 'ainda bem que eu fui'.

Tomara que venham muitas viagens por aí, e que sejam com pessoas tão legais quanto eles: Pedro, Dante & Alex, Catherine e Geoff.


Referendo


Eu sou imigrante. Sou brasileira, tenho cidadania italiana, moro no Reino Unido. Sou casada com outro imigrante. Um argentino, que morou no Brasil. Eu poderia ir mais longe, falar dos meus bisavós, tataravós... sabe-se lá quantos países estão no meu DNA.

Isso já é motivo suficiente para eu seu totalmente contra a saída do Reino Unido da União Europeia. Eu sou a prova de que o mundo é melhor quando temos lado a lado pessoas que não apenas tem nacionalidades diferentes, mas também carregam tradições com as quais nós nunca teríamos contato se não fosse essa coisa maravilhosa que existe hoje em dia que é o direito de ir e vir.

O mundo é melhor quando um país pode ajudar o outro a se levantar. E assim, quem sabe, será ajudado quando estiver precisando. O mundo é melhor quando um país consegue ver potencial no coletivo, e sabe que a caminhada sozinho é muito mais difícil.

Existem dezenas de outras razões, econômicas, políticas, sociais, para que o Reino Unido permaneça na UE. Mas pra mim, é difícil de engolir que alguém acredite nesse lixo todo que é propagado por aqueles que querem o 'Brexit' (Britain + exit), e criam um medo (ah, o medo!) infundado usando imigração como base.

O Reino Unido pode ter centenas de defeitos. Cortar os laços com a UE não vai consertar nenhum deles. O nosso incrível sistema de saúde, já utilizado por mim e pelo Martin (lembrem-se, dois imigrantes!) muitas vezes, não vai melhorar. O sistema de benefícios não vai ficar mais rico. O problema de moradia não vai se resolver.

Até eu, que pouco entendo de política e não sou nem um pouco articulada para dar discurso nesse assunto, consigo enxergar isso. Cadê as grandes corporações (alô Google, Amazon, Starbucks) pagando seus impostos corretamente em vez de se aproveitarem de buracos na legislação? Que se dane né? Mais fácil culpar os imigrantes.

Quando pessoas do naipe de Donald Trump e Nigel Farage (líder do partido de extrema direita daqui) apoiam um lado, sabem o que devemos fazer? Apoiar o outro.

compartilhei essa imagem no Facebook, não sei quem é o autor original

Leitura: Mothering Sunday, Graham Swift

O Graham Swift já ganhou o Booker Prize mas eu ainda não tinha lido nada dele. Esse livro ganhei de uma amiga do ex trabalho, e acabou pulando a fila pois eu queria um livro mais fino (tava com preguiça mesmo).

Gostei bastante! A história se passa em 1924, e é sobre um caso entre uma empregada e um amigo dos patrões dela. Mas não é só isso - só que aí já é contar demais! Enfim, como eu não sou uma pessoa muito articulada no quesito literatura, vou falar aqui o que falei no Instagram: é um livro bonito.

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Minha coluna feminista no Brasil Observer

Estou super feliz de anunciar que agora eu sou colunista do jornal Brasil Observer, uma publicação mensal produzida por uma equipe maravilhosa de brasileiros em Londres. O jornal é publicado em inglês e português e todo o conteúdo fica disponsível tanto na cópia impressa (distribuída gratuitamente em diversos pontos de Londres) como na digital (a edição mais recente você acessa aqui, minha coluna está na página 27).

Comecei a conversar com eles há uns meses, apresentada por duas amigas em comum (muito obrigada, Ana e Roberta). Eles se interessaram pelo meu projeto Conexão Feminista e quando eu propus uma coluna sobre o assunto, fui super bem recebida. Pois aí está! Mais um canal para falar de algo que mudou minha vida.

Espero que gostem, divulguem e deixem comentários e sugestões para as próximas colunas!

Por Todas Elas

Hoje é dia de protesto. Mulheres no Brasil inteiro vão pra rua mostrar que a sociedade não pode ficar calada diante de não apenas esse caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, mas também de tantos outros crimes de violência contra a mulher.

Homens que cometem esses crimes não são monstros, doentes ou psicopatas. Eles agem dessa forma porque nossa cultura patriarcal os ensina a agir assim, já que aprendem desde pequenos que mulheres são cidadãs de segunda classe.

CHEGA. procure no Facebook pelo evento 'Por Todas Elas' e sabe onde acontecerá na sua cidade.

(a imagem abaixo foi liberada pelo autor para ser usada por quem quisesse, como quisesse)



Você perpetua a cultura de estupro?


Ei, você. Responda sim ou não para as perguntas abaixo:

1. Você ja buzinou para uma mulher que estava andando na calçada?
2. Você já chamou uma mulher de gostosa seja na rua, na balada, na escola?
3. Você já tocou uma mulher (em qualquer parte do corpo) que não conhece simplesmente porque a achou bonita e gostosa?
4. Você já falou pra uma mulher que ela deveria ir lavar uma pia de louça ou que ela precisa de uma rola no meio de uma discussão?
5. Você já fez ou já riu de alguma piada machista, do tipo que fala que lugar de mulher é na cozinha, servindo homem?
6. Você já recebeu fotos de mulheres nuas através das redes sociais e não advertiu a pessoa que mandou?
7. Você já insistiu pra uma mulher te beijar mesmo depois de ela ter claramente demonstrado que não estava afim?
8. Você acha que mulher que usa roupa justa, saia curta e blusa com decote está pedindo pra ser assediada?
9. Você já deu em cima de uma mulher e quando ela disse que tinha namorado você foi lá e pediu desculpas para o namorado?
10. Você respondeu sim para alguma das perguntas anteriores?

Se sim, você tem parcela de culpa pela cultura machista e contribuiu para a cultura do estupro. Cultura do estupro, sabe? Não? É aquela coisa que faz com que os homens achem que as mulheres são inferiores, que devem se submeter a vontade deles mesmo quando não querem. Cultura de estupro é aquela coisa que deixa um grupo de 30 homens - que não são doentes, não são psicopatas - a vontade para dopar e estuprar uma mulher, e além disso publicar um vídeo do feito na internet. Cultura de estupro é a imprensa chamar a vítima de 'suposta vítima' depois que o vídeo que compra o fato ter viralizado. Cultura de estupro é o delegado botar panos quentes na situação.

Se você respondeu sim a alguma das questões anteriores, não perca tempo procurando desculpas para o seu comportamento. Apenas haja: ajude a gente a mudar tudo isso. 

A passagem de som


A programação de ontem em Barcelona era conhecer a região de Montjuic. Visitar a Fundação Miró, pegar o teleférico até o Castelo de Montjuic, passear pelos parques e dar uma volta nos arredores do Estádio Olimpico. O que a gente não sabia que ia fazer, quando acordamos, era que esse dia terminaria em um show do Coldplay.

Quando eu e meu pai paramos num quiosque ao lado do estádio para tomar um café, começamos a escutar o som vindo lá de dentro. Alguém estava fazendo uma passagem de som. Foi fácil descobrir que era o Coldplay, pois um cartaz ao lado do quisoque anunciava os próximos shows a acontecerem ali.

Tomamos o café e fomos até o portão principal. A essa altura, o Chris Martin já tinha começado a cantar. Eu, meu pai e mais uma galera que estava passando por ali, naquele dia e naquela hora, resolvemos ficar e escutar mais. Era quase um show particular! Conseguíamos ver um pouquinho do palco através das grades, e foi só ele cantar Paradise e Yellow pra galera até ensaiar uns passinhos. Ali na calçada mesmo!

Poxa, que bacana que seria ver o show do Coldplay em Barcelona. Vou pesquisar na internet, vai que tem um ingresso sobrando né? E não é que tinha????

'Pai, tem ingresso, vamos?' 'Compra, vamos'

Não estava no orçamento da viagem, e um ingresso assim em cima da hora não saiu baratinho. Mas valeu cada centavo. Eu teria pago até mais.

Os 4

Esses somos nós. Fotos assim dos 4 reunidos são raras, principalmente nos últimos anos. Então fica aqui o registro (e sim!!!! Agora eu tenho uma GoPro! Foi presente do Martin, eu tava me sentindo uma blogueira muito da fajuta).

A foto foi tirada hoje a tarde, durante nossa visita a Girona, uma cidade medieval sensacional que fica a 100km de Barcelona.


De Paris a Barcelona


Ai que título de post mais nojento!

Na semana passada estivemos em Paris para um fim de semana prolongado (quando o Eurostar oferece passagens a 29 libras e os amigos podem te receber em casa, não tem como não ir!), e hoje cheguei em Barcelona para 10 dias de férias em família. Dessa vez o Martin não veio!

Pois é! Há uns meses meu pai aproveitou uma promoção e comprou passagens pra ele e minha mãe. Aí, é claro, eu comprei a minha. Então minha irmã se empolgou também e comprou a dela. Então estamos nós 4 aqui, vivendo num mesmo apartamento, como nos velhos tempos. Veremos: ou será um sucesso ou a briga vai ser feia!

Façam suas apostas. Nos falamos em dez dias : )

Leitura: Why Not Me?, Mindy Kaling


Mindy Kaling é atriz, produtora e roteirista de uma série de televisão americana (The Mindy Project), e ficou conhecida quando atuou (e escreveu) em outra série, The Office. Apesar de eu não amar essa série dela (vi alguns capítulos, divertida e tal, mas não me prendeu), eu gosto bastante dela.

Esse é seu segundo livro (não li o primeiro) e como falei lá no Instagram, o conteúdo é bem pessoal. É como se fosse um blog, mas com o apelo de ter sido escrito por alguém que tem fofocas mais interessantes, que envolvem até o Obama.

É uma leitura fácil e engraçada, e ela consegue ser sarcástica de forma muito inteligente. Também aborda o lance de ela ser mulher, de descedência indiana e não ter o 'corpo hollywoodiano' perfeito que geralmente vemos desfilar nos tapetes vermelhos da vida.

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Central do Textão

Há uns meses a Tina (que eu conheci no Twitter - quantas vezes eu já escrevi nesse blog essa frase?) me incluiu num grupo secreto no Facebook. O grupo chamava 'blog dos blogs' e basicamente reunia pessoas que escrevem blogs (e conhecem a Tina) há algum tempo. A ideia da Tina era ótima e simples: criar um site que agregasse esses blogs, não apenas para reunir conteúdo bacana mas também estimular os blogueiros a continuar escrevendo.

Foi assim que surgiu a Central do Textão. Todos os posts que eu publico aqui são 'puxados' pra lá, ele funciona como uma janela para o maravilhoso mundo dos blogs. E é uma janela mesmo: se você clicar em alguma coisa lá, será redirecionado para o blog original.

Eu adorei a iniciativa da Tina, que conseguiu gerenciar tudo sem stress e muito rápido. Todos os participantes fizeram uma vaquinha para pagar uma pessoa (Juliana Vilela) para criar o site.

Foi a partir de um site semelhante, o Mundo Pequeno (que apesar de ainda existir está desatualizado), que eu encontrei o antigo blog pessoal da Claudia, hoje uma grande amiga e sócia no Aprendiz de Viajante. Aliás, o Mundo Pequeno serviu como uma janela para o mundo, e foi nele que eu encontrei inspiração e motivação em momentos que estava totalmente entediada e infeliz no trabalho, há muitos e muitos anos.

Por isso que estou contentíssima em fazer parte da Central do Textão. Estou ao lado de um monte de gente bacana, que escrevem sobre os mais variados assuntos. Política, filmes, livros, feminismo, paranóias, bobagens e sucessos da vida cotidiana. Você vai encontrar muita coisa boa lá, prometo!

Central do Textão

Leitura: A Memória de Todos Nós, Eric Nepomuceno

A única coisa que posso escrever no dia de hoje é a sobre esse livro. Esse livro maravilhoso que meu pai me emprestou e que eu não poderia ter lido em momento mais propício. Um livro que conta histórias (verdadeiras) sobre as ditaduras na América Latina.

A gente (a gente eu digo, quem não viveu na ditadura) sabe o quanto ela foi pavorosa. Ouvimos histórias dos nossos pais, lemos textos, aprendemos na escola (ainda que pouco). Mas esse livro me mostrou horrores que eu não conhecia. Horrores como os vôos da morte na Argentina, os bebês tirados de suas mães semanas depois de terem nascidos e entregues a famílias de policiais e pessoas coniventes com o regime. E outros absurdos como as leis que anistiam todo e qualquer envolvido com a ditadura a ser julgado e condenado.

O triste é que entre os países citados nesse livro, o Brasil é o mais atrasado em correr atrás de esmiuçar o passado. E, quem tenta, tem seu tapete puxado.

Leia esse livro. É a melhor aula de história que vocês podem ter.

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O grande dia: minha primeira meia maratona


Eu corri uma meia maratona. Euzinha aqui, e o Martin, corremos VINTE E UM QUILÔMETROS (uma das primeiras coisas que pensei quando cruzei a linha de chegada foi: como alguém aguenta fazer o dobro disso? Como é possível alguém correr uma maratona inteira?).

Eu tô muito orgulhosa, muito mesmo. Sabe quando você volta de viagem e quer ficar olhando as fotos e só quer conversar dessa viagem com os amigos? Todo mundo de saco cheio de ouvir, e você vira aquela pessoa chata e monotemática por um tempo. Bom, essa sou eu. Acho que isso vai pro meu 'hall da fama' particular, e quero lembrar desse dia pra sempre.



Pra quem quer fazer uma meia maratona em Londres, recomendo demais fazer a Run Hackney. A organização estava impecável, e a atmosfera é maravilhosa. Teve torcida o percurso inteiro. Foi muito legal estar do 'outro lado' e receber apoio do pessoal que vai pra rua pra bater palmas, gritar, distribuir água e dar um apoio moral. Alguns moradores das ruas por onde passamos levaram mangueiras pro lado de fora pra ajudar os corredores a se refrescarem, muito bom!

Haviam muitos pontos oficiais de distribuição de água e também Lucozade, eu acho que não fiquei mais de 2km sem tomar água. Aliás, mais de uma vez eu estava com uma garrafa de água em uma mão e uma de Lucozade na outra!

O maior obstáculo dessa corrida foi o calor. Justamente ontem calhou de ser o dia mais quente do ano em Londres até agora. O que seria maravilhoso, se eu não tivesse que correr a minha primeira meia maratona sob o sol escaldante e o asfalto fervendo. Desde antes da largada (aliás, dias antes, quando saiu a previsão do tempo, recebemos email dos organizadores pedindo que todo mundo se hidratasse e pegasse leve na corrida, sem tentar fazer um 'personal best') fomos aconselhados a tomar muita água durante todo o percurso e diminuir o ritmo se não estivéssemos nos sentindo bem. Infelizmente vimos bastante gente passando mal, mas todos atendidos prontamente por paramédicos (obrigada St John Ambulance!). Confesso que toda vez que via alguém estirado no chão recebendo oxigênio eu pensava: 'espero que eu não seja a próxima!'. E aí eu jogava mais água na cabeça e no rosto e seguia em frente.

Eu geralmente sou sensível ao sol e calor, e treinando meses no frio, estava com medo sim de passar mal. Mas segui firme e forte. Senti cansaço, as pernas ficando 'duras', mas a respiração estava boa e não rolou sensação de fraqueza.

Os últimos três quilômetros foram muito difíceis. Não tinha nenhuma sombra, e, pra completar, tinha uma subida muito chata. Você ouve a torcida gritando 'well done, you are almost there, kepp going, looking great!', e o Garmin também marca 19, 20km... mas cadê a linha de chegada? Não chega nunca! Aí as pernas pesam mesmo e dá muita vontade de parar de correr e seguir caminhando. Nessa hora eu tirei força de não sei onde e comecei a gritar eu mesma 'come on! we are almost there!'. Isso não apenas me ajudou mas ajudou também o pessoal que estava ao meu redor - recebi muitos sorrisos e palmas dos meus colegas corredores assim como da galera que estava assistindo. Foi um momento bem especial (e fico emocionada só de lembrar).

Eu e o Martin estávamos juntos o tempo todo. Em uma corrida desse porte, com 15 mil participantes, fica difícil estar literalmente lado a lado. Estávamos sempre muito perto, alguns momentos ele um pouco mais pra frente, mas um sempre de olho de outro. Se ele estava na frente, eu me motivava para alcança-lo, e vice versa. Como eu falei, o finalzinho foi cruel, e quando a linha de chegada estava a vista a gente deu as mãos e foi!



Completamos a meia maratona em 2 horas e 15 minutos, nosso pace médio foi de 6m22s por quilômetro (na última prova de 10k que fizemos, pra vocês terem uma ideia, o pace médio foi de 5m42s), mais alto do que nos treinos. Mas com o calor, pra gente seria impossível ir mais rápido. Mas está feito! Agora é planejar os próximos desafios e continuar correndo, claro!


Aqui, aí, em todo lugar


Essa semana eu falei no Snapchat que odeio correr sozinha. Bom, pra quem não sabe, eu e o Martin corremos juntos, mas tem dias que um de nós tem compromisso, aí embola o meio de campo e cada um precisa 'repor' a corrida perdida sozinho. Enfim, não é frequente, mas acontece.

Eu tive que correr sozinha um dia desses. Quando isso acontece, eu mudo de percurso: em vez de ficar a maior parte do tempo correndo na rua, eu fico dentro do parque. Eu faço isso pra evitar assédio. Se você é homem, vai achar essa afirmação estranha, mas se você é mulher certamente está pensando em quantas vezes você já fez isso também, mudar o caminho porque está sozinha.

Mas no curto caminho entre a minha casa e o parque, sempre tem um babaca. Dessa vez especificamente um babaca que passou de carro e gritou qualquer coisa pra mim. Gritou e continuou dirigindo sei lá pra onde, mas com certeza alguns segundos depois ele esqueceu o que fez. Talvez tenha feito de novo, talvez faça isso o tempo todo. Não importa. Seguiu em frente.

Eu segui correndo também, mas é claro que não esqueci. Botei ali no meu compartimento de assédios na rua. E chegando em casa eu fiz esse desabafo no Snapchat. Pô, tô ali fazendo meu treino, concentrada, e tem babaca que acha que eu sou entretenimento. Que saco.

Um monte de gente me respondeu se solidarizando. Mas a maioria das pessoas expressou supresa em saber que aqui em Londres isso acontece também. Pessoas que vivem no mundo todo (essa é a vantagem do Snapchat), falando que não sabiam que havia sexismo no Reino Unido.

Eu entendo que a gente tenha essa impressão que em um país europeu a gente esteja muito além de algo tão grotesco quanto sexismo. Que talvez você more em uma cidade onde não precise lidar com esse tipo de problema, e isso é maravilhoso. Muito bom mesmo. Pode sair pra correr e não se preocupar com alguém que passe de carro e buzine. Ou voltar da balada tarde da noite, sozinha, sem segurar a chave na mão.

Mas o que não podemos é fazer com que esse privilégio crie uma espécie de esquecimento. Afinal, se o machismo não te afeta, o que você tem a ver com esse problema? Eu acho que aí que mora o perigo. Quanto mais afastados estamos, menos nos importamos. Eu sei que é difícil se solidarizar com algo que acontece tão longe da sua casa, do seu entorno.

Mas, se você ficou indignado com o que aconteceu comigo nas ruas de Londres, use isso pra pesquisar o problema, investigar a fundo. Não deixe o sentimento morrer. Informe-se, converse, compartilhe informação. Use as redes sociais como aliadas nessa luta. Não se solidarize apenas comigo - eu também sou muito privilegiada, e o sexismo que eu encaro no dia a dia é apenas a ponta do iceberg - mas olhe mais longe: olhe para as mulheres que não podem fazer escolhas, que não podem dirigir, que não podem andar de bicicleta (sabia dessa?), que são violentadas e não tem para quem recorrer, que ganham menos porque são mulheres, que são assassinadas porque são mulheres.

Aí na sua cidade pode estar tudo bem. Mas e no resto do mundo?