Tanta gente falando

setembro 28, 2019 Helô Righetto 0 Comentários


Eu tenho um projeto prontinho de livro. De um livro sobre feminismo. Mandei para algumas editoras, até tive uma conversa via Skype com uma editora que se mostrou super interessada na ideia. Eu tinha inclusive uma viagem marcada em outubro, de uma semana, para me refugiar em um canto da Inglaterra, sozinha, e pelo menos começar a escrever alguns capítulos.

Já escrevi alguns guias de viagem (esse, esse e esses), então eu sei o trabalho que dá e não foi isso que me repensar a ideia de escrever um livro. O negócio é que, eu me pergunto, será que esse mundo precisa de mais uma pessoa falando de feminismo sob a perspectiva de uma mulher branca, hétero e de classe média que nem escreve tão brilhantemente assim?

Tem tanta gente falando, sob tantas perspectivas diversas, com ramificações e intersecções e soluções, que eu achei por bem engavetar meu projeto de livro. Isso aqui não é um pedido descarado de elogios, e também não é Síndrome da Impostora, é simplesmente a realização de que o mundo não aguarda ansiosamente meus ensinamentos feministas.

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Como eu queria escrever lindamente

setembro 23, 2019 Helô Righetto 0 Comentários


No último ano adicionei a minha lista de livros alguns do estilo 'nature writing'. O primeiro foi 'The Outrun', o segundo 'Swimming With Seals', e tenho mais uns dois ou três nesse estilo me esperando na estante. Passei a me interessar por esse tipo de narrativa por causa da minha crescente vontade de estar em meio a natureza, da necessidade de as vezes me desligar completamente da cidade.

São narrativas que tem um pouco de biografia/memórias, história, e informação científica. Em The Outrun, por exemplo, a autora conta como foi seu retorno para Orkney (conjunto de ilhas no norte da Escócia) como parte da sua reabilitação para se livrar do alcoolismo. Já em Swimming With Seals, a autora compartilha seu hábito de nadar no mar gelado todo dia (também em Orkney, coincidentemente), ao mesmo tempo que vive o luto da morte de sua mãe e tenta se adaptar a mudanças pessoais e profissionais.

O que mais me impressionou em ambos, além de elas conseguirem magnificamente intercalar suas dores com informações sobre o lugar em que estão, é a maneira que elas descrevem a natureza e seus movimentos. Eu tenho inveja, inveja mesmo, da capacidade que essas pessoas tem de usarem o vocabulário, de criarem metáforas e conseguirem te fazer querer nadar no mar do norte em um dia gelado e nublado, mesmo você sabendo que será algo dolorido e que há outras tantas coisas melhores pra se fazer na vida.

Escrever lindamente é uma coisa que eu queria muito saber fazer.

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Ninguém pede pra segurar a mão de ninguém

setembro 11, 2019 Helô Righetto 0 Comentários

(sem acentuacao)

O padrao eh assim: eu percebo que uma amiga anda meio sumida - nao interage nos grupos em comum que temos no Whatsapp e nao aparece nas redes sociais como costumava aparecer. Eu mando mensagem perguntando se esta tudo bem, e a resposta eh mais ou menos 'ah, tudo bem, mas estou meio cansada'. Em uma rapida troca de mensagens, percebo que nao esta tudo bem nao. Seja stress por causa de trabalho, cansaco pelo dupla ou tripla jornada (trabalho/casa/filhos/vida social), a questao eh que a amiga se recolheu, diminui bruscamente contato com as pessoas ao seu redor, para lidar com os estresses/problemas sozinha.

Eu, obviamente, nao acho que posso resolver os problemas das minhas amigas. Mas tenho dificuldade em entender a reclusao. A maioria delas - e foram varias, em poucos meses - acabou me falando que 'nao gosta de pedir ajuda, de incomodar' - por isso preferiu carregar as dores sozinha.

E eu achava que a gente tinha amigas e amigos justamente pra nos dar a mao, ou aquele ouvido amigo, quando a gente precisa simplesmente dividir angustias. Me pergunto quando e por que decidimos que pedir ajuda passou a ser incomodo.

Seria essas coisa do conto da vida perfeita das redes sociais? Seria essa onda patetica motivacional que fala pra gente nao desistir nunca? Nao sei. So sei que o slogan 'ninguem sola a mao de ninguem' parece bonito no papel, mas ninguem quer fazer uso dele de verdade.

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