Mostrando postagens com marcador vida na Inglaterra. Mostrar todas as postagens

Tudo que você gostaria de saber sobre hiking na Inglaterra


Você viu uma foto de um hiking que eu fiz no Instagram. Ou chegou aqui porque procurou informações sobre como fazer uma trilha perto de Londres. Ok, vou te falar tudo que você precisa saber!

Ok, não necessariamente tudo que você queria saber, mas tudo que eu sei. Como as perguntas aparecem repetidamente no Instagram toda vez que vou fazer uma trilha, achei que valeria a pena documentar aqui e assim direcionar quem se interessa em começar a fazer essa ativida pra cá. Farei o possível (leia-se: farei quando não estiver com preguiça) para manter esse post atualizado, mas também conto com a proatividade dos leitores para conferir informações.

Vou organizar esse post em forma de 'respostas para perguntas frequentes' mas as vezes a mesma resposta pode ser usada para perguntas diferentes. Então por favor leia tudo antes de deixar um comentário ou me mandar uma mensagem no Instagram. É muito provável que sua pergunta já tenha sido respondida.

1. Onde você acha as trilhas?
No site Saturday Walkers Club, mas existem vários guias impressos (e acredito que em formato de ebook também) disponíveis por aí. Existem guias por região/county our por tema (como por exemplo trilhas que tenham oportunidade para nadar, seja em lago, rio ou praia). Eu uso o SWC simplesmente porque estou acostumada e tem bastante coisa lá.

2. Mas tem muita coisa nesse site, como eu acho uma trilha que seja boa pra mim?
Use a busca. Coloque a região onde você quer fazer sua trilha (por exemplo, se você mora no Southeast de Londres, é muito mais fácil pegar um trem ou dirigir para Kent ou Sussex, mas se você mora no oeste vai ser mais fácil ir para Surrey ou Berkshire.

3. E como eu vou saber se a trilha é difícil?
Simplesmente leia a descrição dela. Nesse site que eu indiquei, toda trilha é classificada de 1 a 10, e também no começo tem escrito a quilometragem. Então se você não tem certeza se vai aguentar ou quer só ter um gostinho, pra ver como é, encontre uma trilha que seja até 5/10 com uma quilometragem de no máximo 15km, por exemplo. Se você quer experimentar já de cara algo mais pesado, busque as trilhas a partir de 6/10 e que chegam perto dos 20km. Com o tempo, você vai conseguir identificar mais rápido se aquela trilha é ou não é boa pra você.

Muita gente me manda mensagem pedindo que eu recomende uma trilha, e eu acho essa uma tarefa difícil, já que o que cada pessoa tem sua própria noção do que é fácil ou difícil. Vamos ser honestos? Você percebe que dá um certo trabalho procurar uma trilha legal e pergunta pra mim, né?

4. Posso levar crianças na trilha?
Poder, pode. Sempre vejo famílias com crianças cruzando nosso caminho, mas o que não posso saber é se aquelas pessoas estão fazendo exatamente a mesma trilha que eu ou se apenas coincidiu algum trecho. Você conhece seus filhos melhor do que ninguém e sabe se eles vão aguentar fisicamente e se se interessam por natureza. Vejo mães e pais carregando crianças bem pequenas naquelas mochilas apropriadas para isso, ou crianças já mais velhas andando num ritmo ótimo, mas por exemplo, nunca vi ninguém passando com carrinho nos trechos que passam por fazendas ou nas subidas por caminhos de terra.

5. Você vai de carro? Ou de trem? Quanto tempo de viagem?
Costumamos ir de trem. Todas as trilhas que fazemos como bate-volta de Londres começam em estações de trem. E geralmente (mas não sempre) o próprio nome da trilha é o nome da estação onde ela começa e termina, tanto no caso das trilhas circulares (que começam e terminam no mesmo ponto) como as que começam e terminam em pontos diferentes. Por exemplo: Robertsbridge Circular, Seaford to Eastbourne).

Preferimos fazer trilhas que comecem/terminem em pontos cuja viagem de trem ou carro não seja superior a 2 horas, mas isso é uma preferência pessoal. Você pode acordar bem mais cedo e fazer uma viagem mais longa. Lembre-se de verificar a frequência dos trens com antecedência!

Aliás, a estação de trem é outro critério pra eu escolher a trilha que farei. Isso porque pra mim é muito mais fácil pegar um trem em London Bridge do que em Paddington.

Se você for de carro (o que a gente começou a fazer durante o período da quarentena do coronavirus na Inglaterra), também verifique com antecedência onde dá pra estacionar, e é claro, lembre-se de escolher uma trilha circular (a não ser que você esteja disposto a pegar um trem no final para voltar ao ponto inicial da trilha e buscar seu carro - é tudo uma questão de logística.

6. O que você leva para comer na trilha?
Eu levo: sanduíche ou uma daquelas saladas prontas que vendem no supermercado, ovos cozidos e alguma fruta. E, é claro, muita água.

7. O que mais você leva na sua mochila?
Saco de lixo, álcool gel, power bank, canivete multiuso, documento, dinheiro, papel higiênico (eu parei de usar papel quando uma amiga me apresentou o Kula Cloth), capa de chuva (independente da previsão do tempo ou época do ano).

8. E se der vontade de ir no banheiro no meio da trilha quando não tem nenhum pub ou café a vista?
O mato taí pra isso. E é por isso que você precisa levar papel e um saco de lixo. Ache um cantinho e faça o que você precisa fazer - mas não faça perto de água corrente, e se for fazer cocô, enterre!

9. Que roupa você aconselha usar? Posso fazer de calça jeans e All-Star?
Poder pode. E se você nunca fez trilha ou fará esporadicamente, nem acho que você deva comprar um super equipamento. Use o que você tem (e calça jeans é até melhor do que calça de moletom): uma legging, tênis de corrida, qualquer camiseta. Quanto mais trilhas você fizer, mais entenderá a importância da roupa apropriada, que te proteja do vento, da chuva e da lama.

Eu por muito tempo comprei a roupa mais barata, e não conseguia me conformar que tinha uma calça de 30 libras e outra de 100. Não que você deva comprar a mais cara, mas não compre a mais barata: com certeza ela não tem proteção de chuva (e ficar encharcado na trilha é uó) e o tecido vai rasgar no primeiro arbusto que enroscar. Hoje em dia eu tenho roupas de qualidade superior e que foram bem caras sim, mas como eu uso muito e preciso que elas durem muito, vale a pena pra mim. Principalmente capa de chuva.

No inverno, use blusa de fleece ou casaco 'down jacket' (ou os dois) e, caso você seja bem sensível ao frio, uma calça apropriada para a ocasião (com fleece por dentro) ou um 'minhocão' de lã merino.

Sobre o calçado: dá pra fazer a trilha com tênis sim. E a questão da lama/sujeira nem é a mais importante. O problema é que um tênis não vai te proteger de uma topada e nem vai manter teu pé seco. Ou impedir que você torça o tornozelo se der uma viradinha no pé (e o terreno em um trilha varia muito, de campo e fazenda a subidas no meio do mato).

10. Qual a marca da sua bota de hiking? Você recomenda?
Salomon. Sim.

11. Que loja que é boa pra comprar equipamento de hiking aqui na Inglaterra?
Mountain Warehouse, Ellis Brigham, Cotswold.

12. Você usa walking sticks?
Eu tenho walking sticks e uso eles em trilhas mais de aventura, como foi na Islândia e no Kilimanjaro, mas não costumo usar nas trilhas que faço aqui de bate-volta, pelo simples fato que tenho preguiça de carregar. Muitas vezes tô no meio da trilha e me arrependo de não ter levado, porque elas ajudam muito a aliviar o peso no joelho e na coluna tanto em subidas como em descidas. Tem quem deteste walking sticks, então você precisa testar mesmo.

13. O que você vê nos hikings?
Antes de tudo, você precisa alinhar suas expectativas. A Inglaterra não é um país com montanhas altas ou paisagens inóspitas - espere ver muita floresta, fazendas e vilarejos. A maior parte das trilhas que faço tem um pouco dessas três coisas, além de invariavelmente passarem por algum lugar histórico, seja uma ruína ou um palacete mantido pelo National Trust.

Uma mesma trilha pode ter uma cara bem diferente dependendo da época do ano que você vai. Em abril e maio, você certamente verá bluebells, ou campos de rapeseed. No verão, estará tudo verdinho e lá por agosto você vai ver muitas frutinhas silvestres e macieiras carregadas quando passar por campos. No outono, tudo em tons de laranja. E no inverno, muito 'frost', árvores peladas e campos vazios. Cada estação tem sua beleza.

14. Tem outras pessoas na trilha?
Sim. Mas raramente muitas ao mesmo tempo. Se a trilha passa por um parque ou por um monumento histórico, mas redondezas você vai cruzar com bastante gente que está passeando por ali. Mas em campos, fazendas e florestas esses encontros são menos frequentes. Existem dois principais tipos de pessoas andando por essas bandas: hikers como você e locais dando uma caminhada em sua vizinhança, muitas vezes levando o cachorro pra passear.

15. As trilhas são muito remotas? Corro o risco de me perder ou não ter sinal de celular?
Uma coisa é fazer uma trilha nas Highlands escocesas. Outra é fazer uma trilha em Kent. Você nunca estará muito longe de uma vila ou uma estrada. Raros os momentos que você fica sem sinal de celular. E isso é o mais interessante: ter momentos de paz e silêncio e solitude sem estar muito longe da civilização.

16. Como você faz pra não se perder?
Duas coisas: eu baixo o pdf do passo a passo da trilha e também o mapa, que você pode baixar em GPX ou KML, que você pode transferir para aplicativos e se guiar pelo celular. Na trilha escolhida no site SWC, esses mapas estão disponíveis na aba GPS, e o passo a passo na aba Download Walk.

17. Dá pra fazer hiking qualquer época do ano?
Sim. Como não temos inverno rigoroso por aqui, não precisamos nos preocupar com neve na trilha. Mas é preciso se preocupar com a quilometragem x época do ano. Por exemplo, deixe as trilhas mais compridas para fazer no verão, quando anoitece bem tarde, e as curtas para fazer no inverno pois anoitece muito cedo.

18. Tem animais nas trilhas?
Quase toda trilha passa por algum campo onde vacas ou carneiros estão soltos, 'grazing', principalmente no verão. Já nas florestas você pode se deparar com coelhos ou esquilos. E muitos passarinhos, mas só. Claro que nem preciso falar para deixar todos os bichos em paz e não alimentá-los né? Quando passar por fazendas e campos com animais soltos, não tenha medo, mas também não atormente os coitados.

19. Ué, mas pode entrar em propriedade privada?
Aqui na Inglaterra existe uma coisa chamada Right of Way. E muitas propriedades privadas são obrigadas a manterem passagens públicas. Então sim, quando uma trilha te bota num campo ou numa fazenda, você não está invadindo nada. Está de passagem e dentro da lei.

20. Pode levar cachorro?
Pode, mas respeite as placas que pedem para usar coleira em áreas com animais que estão 'grazing'. E pelamordadeusa recolha o cocô do seu cachorro. Infelizmente sempre nos deparamos com saquinhos de cocô de cahorro pelo caminho (sério, quem se incomoda de colher o cocô e botar no saquinho e deixar o saquinho lá?)

21. Pode fazer fogueira ou acender meu fogareiro que uso no camping pra fazer comida?
Não.

22. Posso acampar e dormir em qualquer lugar na trilha?
Não. É proibido fazer wild camping na Inglaterra.

23. Você já fez trilha sozinha?
Não, e não tenho vontade de fazer. Mas isso vai de cada um. Eu gosto de fazer essas trilhas na companhia do Martin (e vez ou outra de algum amigo) e é sempre bom ter mais alguém pra garantir a segurança - é improvável, mas vai que alguém torce o pé ou se sinta mal?

24. Mas qual o propósito de fazer trilha? Andar e pronto?
Pra mim, o exercício e o estar no meio da natureza. No momento, fazer trilha é o único momento que consigo não pensar em nada. Gosto de passar por cantinhos que não estão em guias turísticos e que você só consegue chegar a pé.

25. Rola almoçar em um pub?
Rola. Praticamente todas a trilhas indicadas no site tem uma sugestão de parada pro almoço. Eu costumava fazer isso, mas percebi que pra mim o importante era estar no mato e comer qualquer coisa. A parada no pub é geralmente demorada e pode adicionar até 2 horas na programação. Ah, e mesmo que você faça questão de comer no pub, mesmo assim leve algo pra petiscar na mochila. Nunca se sabe se o pub estará cheio ou fechado. O site costuma atualizar as coordenadas e informações de cada trilha, mas pode acontecer de alguma coisa ter sido deixada pra trás.

26. Tem cada flor bonitinha... posso pegar uma?
Olha, poder até pode. É permitido colher flores do campo (em área que não está designada para conservação), mas não pode colher pela raiz, apenas a flor mesmo. Mas... será que precisa? Deixa lá pras outras pessoas apreciarem também!

27. Mais alguma coisa que eu preciso saber?
Sim! Nunca deixe um portão aberto (a não ser que ele já esteja aberto quando você passou), recolha seu lixo, não deixe seu cachorro interagir com a vida silvestre e com os animais de fazenda, tome água, use roupa adequada, leve o mapa e instruções.

Ah, isso é um stile, isso é um kissing gate, isso é um field gate.

28. Posso usar essas dicas para trilhas na Escócia e em Gales?
Pode. Mas seja muito mais cuidadoso em relação a mapa e instruções. Nesses lugares é mais provável que você perca o sinal do celular. Então leve comida e água extra.

29. Tenho só uma semana pra conhecer Londres. Vale a pena usar um dia pra fazer hiking?
Vale. Se você quer passar por um lugar que não está em nenhum guia turístico, se você curte natureza ou se você quer ter uma noção do que realmente é a Inglaterra, faça sim!

30. Por favorzinho, fala uma trilha que você gostou fazer.
Sevenoaks circular, Robertsbridge circular, Box Hill to Leatherhead, Cuxton to Sole Street.


Robertsbridge circular


Dessa vez a viagem de trem para o ponto inicial da trilha levou cerca de uma hora e meia, o que é bastante comparando com a média de 45, 50 minutos. É um tempo que me faz pensar que eu poderia muito bem estar na cama, mas estou sentada olhando a paisagem passar rápido, tão rápido que nem consigo ler o nome da estações por onde o trem passa sem parar. De qualquer forma, é tarde demais para qualquer arrependimento - se for para desistir, que seja no segundo que toca o despertador (o que já aconteceu, mais de uma vez).

Já havia passado mais de um mês desde a última trilha, então eu estava feliz de finalmente calçar as botas, encher a mochila de água e comida e caminhar os quilômetros que fossem para chegar no ponto final. Nesse caso, o ponto final era o mesmo do inicial, as maravilhas de uma trilha circular.

Ainda que a vontade de ir pro mato estivesse a flor da pele, a preguiça influenciou o percurso: em vez de ir para Wendover a partir da estação de Marylebone, achei a trilha Roberstbridge circular um dia antes, que nos permitiria pegar o trem em London Bridge. Muito mais fácil, garantindo pelo menos 30 minutos extras na cama.

Nossas caminhadas pelo interior da Inglaterra são repletas de rituais, adquiridos ao longo desses três anos desde que começamos a fazer hiking com frequência. O ritual da manhã inclui chegar na estação cerca de uma hora antes do trem partir. A primeira coisa é providenciar as passagens de trem. A segunda coisa é comprar comida para o dia (em London Bridge, isso é feito no M&S). Coisa fácil de carregar: wraps, saladas prontas, frutas, algum doce. E depois, finalmente, tomar o café da manhã. O café da manhã pré hiking é um ritual dentro do ritual: vamos no Leon (não no que fica dentro da estação, que tem um atendimento péssimo, mas o que está do outro lado da rua, sempre vazio e muito maior), comemos nossos sanduíches de avocado com queijo haloumi e tomamos nossos skinny lattes. Faltando 15 minutos pra saída do trem, começamos a ir devagar para a plataforma.

Invariavelmente outros hikers embarcam no mesmo trem. Alguns saltam antes, a gente fica curioso pra saber que trilha eles vão fazer. Quando saltam com a gente, nos perguntamos se os encontraremos ao longo da nossa trilha ou talvez no trem de volta. Isso é coisa rara. Dessa vez, porém, uma moça que carregava uma edição do livro Country Walks saltou na mesma estação - Robertsbridge - mas logo acelerou. Curiosamente, encontramos com ela lá pela metade da trilha, mas  ela acelerou de novo. Não a vimos no trem de volta - deve ter conseguido embarcar no trem anterior.

Estávamos um pouco enferrujados por causa do "mais de mês sem hiking". Martin sincronizou seu relógio Suunto, abriu o mapa no celular. Eu abri as instruções no meu. E seguimos. Há alguns meses o hiking passou a ser coisa nossa, em vez de algo que fazemos com os amigos. Paramos de chamar outras pessoas para nos acompanharem, e acabamos arrumando desculpas quando somos chamados para acompanhar grupos grandes. Acho que família de dois, sem filhos, é meio assim - pelo menos nós dois somos - anti social. Quando a gente se toca que alguma coisa "'é nossa", a gente cria uma bolha em volta dessa coisa. Era assim com a corrida.

Apesar do dia de sol, o caminho estava enlameado, por causa da chuva constante nos dias anteriores. Eu não me importo com a lama. Gosto de afundar a bota nela pra provar pra mim mesma que ela valeu o investimento. Que a minha bota é boa, impermeável. Quando mais suja, melhor. O problema da lama é que ela vai acumulando e secando na sola e nas laterais, deixando a passada mais pesada, cansando a perna com mais intensidade.

Encontramos pouca gente pelo caminho, o que é atípico. Mais tarde, depois do almoço, quando passamos pelo Bodiam Castle, entendemos que todo mundo estava lá. Até o estacionamento estava lotado. Mas logo o castelo e a multidão ficou pra trás e seguimos sozinhos pelas folhas, pela lama, pelo campo.

Pela primeira vez, passamos por um milharal ainda por ser colhido. Não sabia que a planta do milho era alta desse jeito - da altura do Martin. Também passamos por uma plantação imensa de maçãs - quase todas já colhidas, muitas outras no chão, apodrecendo lindamente, um cheiro maravilhoso que me lembrou cidra. Não pegamos nenhuma maçã - mas pegamos dois milhos. Desculpa, agricultores. Somos seres humanos falhos mesmo. Se serve de argumento, eu nunca havia colhido um milho (não cozinhamos ainda, não sei se estava "no ponto"). As vezes eu brinco com o meu pai: ele saiu do meio do mato, de uma infância com vaca de estimação. E eu fico buscando essa vida rural nas trilhas. Me encanto com as ovelhas, com as plantações.

O trem de volta era de hora em hora, e chegamos na estação 10 minutos atrasados. Ou 50 minutos adiantados. Decidimos sentar em um pub ali ao lado, para tomar uma café, e o abismo entre Londres e countryside se fez presente: o atendente não sabia o que era um latte. Pedimos então coffee with milk e fomos servidos com um café preto instantâneo e uma jarrinha de leite frio. dessas que eles usam pra botar no chá. Tomei um pouco por educação, mas o meu lado cidade falou mais alto. Eu preciso de um latte.

O que me leva ao ritual do retorno: o latte no Leon assim que desembarcamos em London Bridge, antes de pegarmos o trem pra nossa casa. No Leon com atendimento péssimo mesmo, porque a essa altura do campeonato não sobra mais energia pra atravessar a rua.

Canola


Se você fizer uma viagem de trem ou de carro pela Inglaterra durante a primavera, é provável que veja diversos campos de flores amarelas pelo caminho. É uma marca registrada. Mas claro, com a velocidade, a gente vê apenas o 'conjunto da obra', um borrão amarelo passando rapidinho na janela. Não faz muito tempo que eu finalmente descobri que são plantações de canola (em inglês, rapeseed, um nome que eu particularmente acho péssimo).

E faz menos tempo ainda - dois dias - que eu vi uma plantação dessas sem estar dentro do carro ou do trem. Eu não apenas vi, mas entrei na plantação. O borrão ficou nítido, ganhou contorno. Vi que, apesar do conjunto da obra ser amarelão, as flores são bem pequenas e a maior parte é mesmo o cabo (haste? tronco?) verde. São plantas altas, semeadas tão do ladinho uma da outra que não dá pra passar no meio se não tiver uma caminho aberto. E, mesmo andando pelo caminho demarcado, nossas roupas ficaram cheia de pólen, pequenas manchas amarelas. Trouxemos um pouquinho do borrão pra casa!


Jane Austen: meu novo tour!


Adivinha quem arrumou uma nova sarna pra se coçar???

Mas uma sarna literária, histórica e, por que não, feminista.

Chamei minha amiga e também guia Raphaella pra montar esse tour comigo, e assim criamos 'Jane Austen por trás dos romances'.

Será um tour de dia inteiro, dia 13 de abril (sábado) pelo interior da Inglaterra. Vamos passar por 4 cidades por onde Jane passou, vamos seguir seus passos desde seu nascimento em Steventon até sua morte em Winchester.

Vamos dividir com quem estiver no tour a nossa interpretação de Jane Austen: uma mulher com olhar afiado, questionadora, e que usa seu poder de observação e crítica para montar seus personagens e seus enredos. Você sempre achou que os livros de Jane Austen são puro romance? Pois reavalie: são praticamente uma biografia da Inglaterra georgiana, com duras críticas a instituições praticamente intocáveis, como igreja e exército. Além disso, ela aponta também o silenciamento de mulheres e nos faz repensar se os finais que escreve são mesmo finais felizes.

Esse passeio será feito com transporte privado, e teremos parada pra almoço em um pub histórico (tudo incluso no preço). Estão inclusos também os ingressos para duas atrações pagas. O preço cheio é 170 libras (clique aqui para comprar), mas abrimos 3 vagas por 150 para quem reservar antes de todo mundo (clique aqui).

Vamos? Caso você tenha alguma dúvida, entre em contato. Nesse PDF estão mais detalhes sobre o tour.

Cerejeiras


Tem uma janela de duas semanas, geralmente no mês de abril mas que pode cair no início de maio também, que é quando as cerejeiras florescem no parque aqui do lado de casa. Esse ano, por causa do frio intenso (com vários dias de neve, o que é bem atípico por aqui) justo no final do inverno, elas atrasaram um pouco para abrir.

Mas finalmente, há uma semana, o parque virou um pequeno mundo cor de rosa. Eu gosto tanto de ver essas árvores d eperto que tenho ido lá quase todo dia. Daqui a pouco as pétalas começam a cair e o que fica cor de rosa é o chão. O espetáculo dura pouco, então eu tento aproveitar o máximo que posso.

Essa primeira foto foi bem no dia que elas abriram. Podem ver que nem todas estão abertas, ainda dá pra ver vários galhos e alguns brotinhos. Mas o interessante foi que eu tinha passado ali um dia antes, e elas estavam fechadas. Como fez muito calor nesse dia, eu apostei que elas abririam no dia seguinte. E acertei.

A post shared by Helô (@helorighetto) on


E aqui depois de alguns dias, com todas já abertas, o que a gente chama de 'full bloom' em inglês:


E a título de curiosidade, uma foto do mesmo lugar (exatamente o mesmo lugar) tirada dia 28 de fevereiro, durante a frente fria que ficou conhecida como 'Beast from the East':

Meu livro novo


Turma das antigas: lembram de uma série de posts que eu publiquei aqui há uns anos, que consistiam em listas estilo 'top 5' que falavam de forma engraçada sobre a vida em Londres? Bom, eu segui o conselho de alguns de vocês - que me falavam que eu deveria juntar essas listas e fazer um livro - e, aqui está ele: Quase Londoner, um guia não convencional.

Além das listas, escrevi também sobre 70 lugares pra visitar na cidade, fora do circuito já tão explorado por guias de Londres mais comerciais (como o meu próprio Guia de Londres Para Iniciantes e Iniciados, o qual continua  avenda). Ou seja, o livro é meio que um registro desses meus mais de 9 anos morando aqui, explorando a cidade sem parar, descobrindo novos lugares e estranhando a cultura britânica : )

Custa R$30,00 e está disponível em formato ebook. Clique aqui para comprar o seu. Muito obrigada pelo apoio!


Hiking


Uma pessoa no Instagram me pediu para contar porque eu gosto tanto de fazer hiking, como esse hobby começou. Engraçado que eu nunca tinha parado pra pensar nisso! Sair pra caminhar na natureza nos finais de semana tem sido minha atividade preferida ultimamente, e eu espero ansiosa por esses dias. Mas realmente não foi algo que passei a fazer de uma hora para outra, então precisei parar pra pensar, e fazer uma espécie de 'retrospectiva' mental para lembrar de como isso começou.

Em maio de 2013 fomos passar um fim de semana prolongado no País de Gales (nossa primeira vez por lá). A gente foi pra capital, Cardiff, mas percebemos que seria tempo demais pra ficar lá (achamos a cidade legal, mas não foi assim um lugar que nos impressionou), então fechamos com uma agência local para fazer um passeio de um dia para a Península de Gower.

Foi nesse passeio que descobrimos que existe uma trilha que pasa por toda costa galesa, e nós fizemos um pedacinho dela. Lembro de voltar pro hotel em Cardiff completamente encantada com o que eu tinha visto. Estava tão impressionada com a beleza de Gales que logo marquei de passar mais um fim de semana lá pra caminhar por mais um pedaço da trilha.

A segunda vez também foi muito legal (fomos para a região de Glamorgan), e depois que voltamos começamos a comprar roupas melhores e apropriadas para essa atividade. Voltamos mais três vezes desde então, e sempre com o objetivo de fazer caminhada e conhecer mais do interior do país. Cada vez que a gente ia aprendíamos algo novo (geralmente por causa de um erro, como por exemplo levar pouca comida e água na mochila, achar que não precisávamos de jaqueta corta vento porque o dia estava ensolarado e coisas do tipo), e passamos a nos preparar melhor.

Da vez que fomos para a região de Snowdonia, acabamos subindo o Monte Snowdon, e adoramos a experiência. Soubemos que o Snowdon é a segunda montanha mais alta da Grã Bretanha, perdendo para o Ben Nevis, na Escócia. Então, em março de 2016, lá fomos nós para a Escócia com o objetivo de chegar no topo do Ben Nevis.  Foi incrível! Muito mais difícil que imaginávamos, mas nós dois curtimos muito. Estávamos bem equipados e preparados fisicamente. Foi por causa dessa viagem ao Ben Nevis que começamos a considerar seriamente a possibilidade de ir para o Kilimanjaro.

A post shared by Helô (@helorighetto) on


Mas antes do Kilimanjaro, uma amiga minha que já fazia hiking há mais tempo nos chamou para fazer uma trilha nos arredores de Londres (obrigada, Pri!), isso há pouco mais de um ano. Pronto! Adoramos! Nunca tínhamos nos tocado que era possível fazer esse tipo de programa sem precisar planejar uma viagem. Por mais que a gente ame a Escócia e o País de Gales, não é sempre que dá pra se deslocar.

Agora, cada vez que a gente faz uma dessas trilhas no interior da Inglaterra, já combinamos a próxima. A maior parte das vezes na companhia dos amigos, mas não é sempre que podemos nas mesmas datas. Já fizemos só nós dois, com outros grupos, e eu até já fiz algumas sem o Martin, quando ele estava viajando a trabalho.

A post shared by Helô (@helorighetto) on


Se há 6, 7 anos atrás você me falasse que eu seria uma dessas pessoas que ama estar no meio da natureza e gastaria meu dinheiro comprando bota de caminhada e jaqueta impermeável, eu iria rir da sua cara. Sempre me considerei uma pessoa 'da cidade'. E agora, apesar de ser feliz morando em um lugar caótico como Londres, fico sempre planejando a próxima escapada pro meio do nada. Eu e o Martin recentemente compramos uma barraca e em breve vamos acampar pela primeira vez (sem contar a expedição do Kilimanjaro, claro, mas lá tudo era feito pra gente - não nos preocupamos em montar barraca ou fazer comida). Nossa próxima viagem juntos é para um lugar especial na Escócia, que estou com vontade de conhecer já há alguns anos, justamente por causa da natureza intocada e das trilhas. Também estamos programando uma outra viagem de aventura para o fim do verão europeu, mas vou falar disso com mais detalhes quando tudo estiver fechado.

A post shared by Helô (@helorighetto) on


É preciso ter disposição pra acordar cedo no fim de semana, pegar o trem e passar o dia andando. Pode chover, pode estar frio, pode ter muita subida. mas não teve nenhum dia que me arrependi de ter ido. Voltar pra casa com as botas sujar e aquele cansaço gostoso, e também com a sensação de ter conhecido um pouquinho mais do país onde moro, é muito recompensador (ah, e sem contar nas paradas estratégicas no pub pelo caminho!!!)

Oi, 2018!


Assim como o Natal, o ano novo foi bem tranquilo e em companhia de grandes amigos. Comemos, conversamos, brindamos, vimos os fogos na televisão (lembrando que ano passado a gente viu os fogos ao vivo, lá na frente da London Eye! Experiência que recomendo muito pra quem mora aqui, pra fazer pelo menos uma vez), e às 2 da manhã estávamos de volta em casa, prontos pra dormir.

Eu gosto muito da passagem de ano e de toda essa atmosfera otimista (por mais que o mundo esteja uma bela bosta e as perspectivas para 2018 sejam desanimadoras). Pessoas traçando metas, fazendo listas, largando hábitos antigos e tentando incorporar novos hábitos. Detesto os chatos que falam que 'você tem que mudar, não o ano'. Eta povo estraga festa!

Não sou de fazer grandes planos pro novo ano. Não sou de fazer grandes planos nunca, na verdade. Gosto de pensar em metas bem simples, acho que pelo simples fato de eu não ser uma pessoas ambiciosa. Pra vocês terem uma ideia, algumas das minhas metas para 2018: parar de colocar açúcar no café (já comecei dia 29/12 e continuo firme e forte), cortar refrigerante da minha vida de uma vez por todas (eu não compro pra ter em casa, mas sempre acabo pedindo quando vamos comer fora e eu não quero nada alcoólico), parar de carregar bolsa grande cheia de tralha (também já comecei em 2017), trocar o colchão e mandar pintar o apartamento (esse tem grandes chances de não acontecer, me dá uma gastura só de pensar na pentelhação que é ter a casa pintada).

Ah, também perguntei pro Martin se ele topava tirar uma 'selfie' por dia, nós dois juntos, e ele topou. Então esse é nosso projetinho juntos.

E vocês, traçam metas pro ano novo?

(Guest Post) Relato de pré natal e parto no NHS


O NHS é o sistema de saúde pública aqui no Reino Unido. Como qualquer instituição - pública ou privada - o NHS tem lá seus problemas. E desde que cheguei aqui percebo que o sistema vive em crise. Faltam recursos, faltam profissionais, e sobram políticos utilizando o NHS para conseguirem votos. O NHS foi inclusive protagonista na campanha (mentirosa) a favor do Brexit, e um dos grandes medos da população é que um dia ele seja privatizado.

Para brasileiros privilegiados que vem morar no Reino Unido (ou seja, acostumados com plano de saúde no Brasil), pode rolar um estranhamento. A gente não pode fazer o exame que quer, quando quer. É preciso passar pelo crivo do GP (o médico de família), e a possibilidade de você conseguir fazer um exame ou ser indicado para um especialista é baixa (o papanicolau, por exemplo, é feito a cada 3 anos). O GP tenta resolver seu problema, e há inclusive a lenda do paracetamol: há quem diga que não adianta chorar as pitangas pro médico. Você vai sair da consulta com a recomendação de tomar paracetamol.

Você certamente vai ouvir histórias horrendas sobre o atendimento do NHS. Vai ouvir que é preciso exagerar sintomas, contar umas mentirinhas, insistir até conseguir fazer um certo exame ou ver um especialista. Claro que é uma loteria, seu GP pode ser muito melhor do que o da sua amiga. Aqui em casa a gente tem uma experiência ótima. O Martin inclusive já conseguiu ver especialista (dermatologista) e eu fiz exame de sangue duas vezes, sem precisar exagerar sintomas.

Mas enfim, estou fugindo do assunto principal desse post, que é contar como é o procedimento de pré natal e parto no NHS. É completamente diferente de um atendimento particular no Brasil. Tenho várias amigas que tiveram seus bebês aqui, e pedi pra uma delas, a Renata, contar como foi a experiência dela.

Queria fazer apenas um adendo ao relato da Renata: pode parecer bobagem, mas acho importante a gente lembrar que serviço público não é gratuito. Óbvio que é maravilhoso não precisar pagar um plano particular para ter acesso a bons médicos, exames e hospitais. Mas, novamente, não temos esse serviço de graça! Imposto é pra isso, certo?

Bom, segue então o relato de parto nop NHS da Renata. Se alguém tiver alguma pergunta, deixe nos comentários que eu peço pra ela responder.

**********

Descobri que estava grávida depois de fazer um exame de farmácia. Como não tinha menstruação regular, não saberia dizer a minha data estimada para o parto e por isso resolvi fazer o primeiro ultrasom particular. Me cadastrei no hospital perto da minha casa na época (West Middlesex) e avisei meu GP (médico geral). Aqui no NHS- National Health Service - o sistema público de saúde, você só está oficialmente grávida após a 12a. semana, quando uma carta chega na sua casa te convidando para a primeira consulta com a midwife, as parteiras, e o primeiro ultrasom. Vale ressaltar que você é atendida por uma equipe de midwives e que não necessariamente será com a mesma (no meu caso sempre foi diferente). E essa equipe é até o pré parto. Para o parto e o pós é outra equipe.

Entrei em contato com um amigo da minha irmã (ela é médica otorrino lá no Brasil e um dos melhores amigos dela da faculdade estava estudando em Londres na época) que é obstetra e acabei tendo acompanhamento dele ao longo da minha gravidez inteira. Então antes de fazer o primeiro ultrasom no NHS, fiz com o médico no hospital que ele fez o master dele, que é referência em estudo fetal e síndrome de down na Inglaterra.

Consultas

Com 12 semanas tive minha primeira consulta com a midwife e com 13 meu primeiro ultrasom. Nesse primeiro ultra são tiradas as medidas, é dada a data de nascimento aproximada e se você decidir pode saber se o bebê tem síndrome de down.

O próximo e último ultrasom pelo NHS feito com 20 semanas chama anomaly scan, para checar qualquer anomalia estrutural (adendo: o aborto é permitido na Inglaterra até a semana 24, no próprio NHS). Para algumas mulheres é oferecido mais de dois ultras, mas depende da gravidez e condição de saúde da grávida. É nesse scan também que você pode saber se terá menina ou menino. Aqui ainda é muito comum não ficar sabendo e mesmo se você escolhe saber, tinha um aviso no meu hospital de que não é 100% certeza.

Além das duas ultrassonografias, o acompanhamento durante toda a gravidez é feito pelas midwives e o seu médico GP. Então se você teve uma consulta com a midwife com 16 semanas, a próxima, de 25 semanas, será com o médico. O calendário de consultas é nas seguintes semanas: 12, 16, 20 (ultrasom), 25, 28, 31, 34, 36, 38 e 40 (tem também com 41 e 42). A partir da 28a. semana eles dão a vacina da coqueluche. Vale lembrar que aqui você praticamente não tem opção de cesária, a não ser que seja uma gravidez de risco, se o bebê ou a mãe estão em perigo. Por isso eles esperam até a 42a. semana de gravidez para induzir o parto, e ainda assim tentar naturalmente.

Nas consultas sempre é feito teste de urina, medem sua barriga, discutem plano de parto e são muito breves. Se você não tem nenhum questionamento, não tem porque demorar. E em todas as consultas você leva sua pastinha de grávida, com seu número de hospital, informações sobre o parto, resultados de ultrasom, etc.

Foi na minha consulta de 31 semanas com a médica no GP que ela achou que a minha barriga estava pequena (pela medição deles, era uma barriga de 28 semanas e não 31). Na mesma hora ela ligou para o hospital e no dia seguinte fui ao ambulatório medir minha barriga, escutar o coração do Felipe por mais de 1h (eles medem os batimentos para ter certeza de que está tudo bem) e assim foram três dias na semana, por duas semanas. Eu ainda fiz mais um ultrasom, onde a ultrassonografista perguntou se eu me exercitava, eu disse que sim, inclusive tinha corrido uma meia maratona grávida - sem saber - e ela explicou que barriga de "atleta" sempre é menorzinha.

Como falei lá no começo, eu tive acompanhamento de um médico brasileiro ao longo da minha gravidez inteira - fiz ultrasom até 38 semanas. E vou confessar que toda vez que tinha um ultrasom marcado com ele eu ficava mais em paz de saber que tudo estava caminhando bem. Portanto se eu não tivesse tido esse acompanhamento, com certeza teria feito um (ou dois!) ultrasom particular.

Com 37 semanas mudamos para o outro lado da cidade e consequentemente de hospital e de equipe de midwifes. Avisei meu antigo hospital, fui conhecer meu novo quando tive consulta (alguns hospitais disponibilizam tour para conhecer a maternidade, mas não fui) e me cadastrei no GP. No meu novo bairro, as consultas eram feitas sempre com as midwifes - e não com o GP. Tive 2 consultas, uma com 38 semanas e outra com 39 (minha barriga pequena ainda era uma preocupação). Lembro que era uma quarta-feira e ao sair dessa consulta falei para a midwife: até a semana que vem. E ela: talvez não, né? Não fui mesmo. Felipe nasceu na sexta-feira, com 39 semanas e 2 dias.

Parto

Na manhã de sexta feira estava me sentindo diferente, não sei explicar...tinha um incômodo, mas nada preocupante. Fiz um bolo de limão, já que a minha família chegaria no sábado, descansei um pouco e ia fazer meu almoço. Levantei do sofá e minha bolsa estourou às 12:30. Liguei para o Vini, meu marido, e ele não atendeu. Veio uma mensagem: é urgente? Sim. Falei que estava tudo bem e que ia ligar para a midwife. Ela me disse que eu precisava ir para o hospital para eles me avaliarem, nada correndo, nas próximas 24h, e para eu guardar todos os absorventes para eles analisarem o líquido.

Combinei com o Vini de nos encontrarmos no hospital, já que ele ia do trabalho e não compensava vir até em casa. Chamei um uber, peguei minha mala do hospital e minha pastinha com todas as informações e fui. Subimos para a maternidade e fui atendida no Oasis Ward.

Aqui vale uma pausa para explicar que a maioria dos hospitais (não sei se em todo Reino Unido, mas acredito que sim) tem dois tipos de maternidade: a tradicional, onde se eu escolher ter anestesia eu posso ou se precisar de algum cuidado especial, e o oasis, que parece um mini spa, com bolas de pilates, banheiras, algo mais natural, sem intervenção médica.

Quando fui atentidida pela midwife no Oasis achei estranho, afinal, eu deixei bem claro no meu plano de parto de que queria anestesia, ter uma epidural. Ela ouviu o coração do Felipe, o meu, nem viu se eu estava com alguma dilatação e falou: olha ainda esta muito no início do trabalho de parto. É melhor vocês voltarem para casa, pois aqui não tem onde ficar. Vini falou que estávamos de taxi, se não era melhor esperar lá. Ela se desculpou e disse que podíamos ficar lá embaixo, na recepção. Mas antes perguntou se não queríamos conhecer o Oasis. Eu disse que não, que queria ter na maternidade pois queria anestesia. Mas por que você quer anestesia? Você é capaz de fazer sem anestesia. E só saberá se passar por isso. É prefiro não saber. Isso eram umas 15h.

Ainda ficamos em um café decidindo o que fazer. Não tínhamos carro então teríamos que pegar táxi, horário de pico...mas decidimos e chegamos em casa umas 16:30. Tomei banho, coloquei a tens machine, que da choquinho para aliviar a dor das contrações que começaram a ficar cada vez mais frequentes, mais doloridas. Vini chamou um uber e chegamos de volta no hospital às 19h. Era troca de turno das midwifes. Estávamos na sala de espera e eu já com muita, muita dor.

Nos atenderam às 19:30. Me examinaram e eu já estava com 7 cm de dilatação. Vini falou que eu queria epidural. A midwife muito simpática falou: querido não vai dar tempo. Mas vocês não podem tentar? Podemos, mas precisamos de um anestesista e precisamos ver se ela pode tomar. O processo demora. Nisso eu com muita dor, falei: to querendo empurrar. Nos levaram para a sala de parto. O cordão umbilical estava enrolado no ombro, ouviram os batimentos do Felipe e chamaram uma obstetra que acompanhou o finalzinho do parto. Ainda bem que não resolvi ter no Oasis. Felipe nasceu às 20:50.

Pós parto

Todo o atendimento no meu pre-natal e parto foi muito bom, mas o pós parto foi muito ruim. Digo no hospital e nos primeiros dias com o Felipe em casa. No hospital não fizeram muita questão de me ensinar a fazer ele mamar no peito. Até mostraram mas sempre com a fórmula do meu lado. E na maternidade mesmo Felipe tomou fórmula. Fizeram os testes de recém nascido nele e recebemos alta no dia seguinta, sábado, às 22h.

Depois que o Felipe nasceu e foi examinado pela pediatra, ficamos no quarto por cerca de 2 horas. Tomei banho, comi um lanche oferecido pelo hospital e trocamos o Felipe. Não ficou nenhuma enfermeira ou midwife conosco no quarto. Nos transferiram para a ala de pós parto e uma das midwives falou que colocaria a gente perto da janela para termos um pouco de privacidade. Na ala de pós parto era dividida por 7 baias. Cada uma tinha uma cama, uma poltrona e um bercinho. O bebê fica com você o tempo todo. Quando cheguei, 4 baias já estavam ocupadas.

Dois dias depois de receber alta, uma health visitor vem na sua casa para saber como você esta e o bebê. Foi a pior health visitor que conheci ate agora. Falei da amamentação, mostrei como ele mamava e ela disse que o Felipe tava fazendo meu peito de chupeta. Dei fórmula na mamadeira para ele chorando enquanto ela escrevia no livro do Felipe que eu e o Vini estávamos muito emocionalmente abalados.

Como Felipe perdeu 9% do peso do parto (o aceitavel é até 10%) eu tive visita de health advisers ate que bastante na minha casa e também tinha consulta no hospital. Cinco dias depois recebemos a visita de outra, um pouco mais profissional, que fez o teste do pezinho, me perguntou da amamentação, disse para eu complementar com fórmula e o pesou. Cada vez q eu tirava a roupa do meu magrelinho para colocá-lo na balança meu coração batia tenso. Felipe tinha ate dia 25 de junho, 15 dias após o nascimento (e meu aniversário!) para atingir um determinado peso.

Dia 18, um sábado, duas super amigas vieram me visitar e me ajudaram muito, mas muito mesmo com conselhos sobre amamentação. Foram essenciais. Todo apoio, conversa e incentivo vou guardar para sempre. "Siga com força de vontade e perseverança que você ta fazendo certo. Acredite em você e não dê a fórmula". Uma semana se passou e fomos eu, minha mãe e irmã pesá-lo no hospital. Era uma health advisor bem jovem, super simpática. Mas de novo o frio na barriga ao colocá-lo na balança começava. Meu melhor presente de aniversário foi ouvir: "Felipe engordou xx gramas. Alcançou o peso. Continue como você está fazendo, pois funcionou". Quem vê fotos dele com seis meses nem imagina o que foram os primeiros meses da amamentação. Foi uma vitória, com muitas lágrimas, muita dor, muito cansaço, mas também muito apoio (Vini, família, amigas e grupos de amamentação), muita conversa e muita determinação minha.

Visitas

Aqui você não tem um médico pediatra que acompanha seu filho. Temos health advisors que vão até sua casa nos primeiros meses, o GP, que você registra após o nascimento e onde toma as vacinas, e centros de pesagem, em dias e horários específicos separados por região. Temos também muitos grupos de apoio à amamentação que normalmente são organizados por voluntárias. Lá você pode também pesar o bebê, conversar, ouvir outras mães. Para mim era como se fosse uma terapia. De graça.

Lembrar que todo o meu pré natal, parto e o pós parto foram realizados no NHS ainda me surpreende. Eu acho um serviço muito bom, não tenho do que reclamar (tirando a primeira health advisor que veio em casa). No meu GP tem a opção de ter uma consulta telefônica no mesmo dia, consultas marcadas e consultas para o mesmo dia. A grande maioria das vezes que precisei falar com o médico, eu fui atendida. O Felipe com 2 meses teve uma gripe super forte e em 10 dias levei ele no GP cinco vezes. Todas as consultas fui atendida pelo mesmo médico, atencioso, mas que chegou a anotar em um papel o número de vezes considerado normal a respiração de um bebê a pediu para eu contar antes de voltar lá.

Enfim...eu estava acostumada a ter plano de saúde no Brasil e sempre ter a minha irmã e tios médicos perto. Aqui a coisa é diferente e tudo é adaptação, principalmente com o Felipe. Mas aos poucos a gente vai entendendo como funciona e entramos no esquema do NHS.

Mania de grandeza


O Reino Unido é um lugar com mania de grandeza. Começando é claro por esse nome, REINO UNIDO. Tá meio desatualizado né? Mas enfim, piadinhas brexiteiras a parte, eu acabei de ter um insight vendo um comercial na televisão sobre conscientização do Alzeimer.

Até quando é pra falar de coisa ruim, o negócio tem que ser grandioso. Tal doença É A QUE MAIS MATA britânicos que nasceram no mês de janeiro de 1978 e escrevem com a mão direita. Tudo é mais, é maior, é melhor. Sabe aquela pessoa que te fala que já quebrou o braço quando você conta que quebrou o dedo? Então, se essa pessoa fosse um país (ops, um reino), seria o Reino Unido.

E as igrejas, gente? Aí você vem morar no Reino e vai visitar sua primeira catedral. Uau, que linda! Tá aqui escrito no folheto que essa é a catedral mais antiga do país. Mas pera lá, essa outra aqui, que você visita duas semanas depois, tá falando a mesma coisa. Ah pera, é que uma é considerada a mais antiga se você falar do uso de tijolos brancos, a outra de tijolos amarelos. Aí tem que se se vende como a que possui o maior teto abobadado do planeta, a outra que tem o maior órgão, a outra tem a torre de madeira mais alta, e a outra foi a mais bombardeada em uma guerra aí.

E os pubs? Só em Londres tem uns 756 pubs que são o mais antigo da Inglaterra.

O maior, o melhor, o mais bonito, o mais antigo. A gente tem que é achar graça!


via GIPHY


Transição




Depois que me mudei pra Londres e aprendi na prática o que havia aprendido na aula de Geografia na escola há muitos anos - que na Europa as quatro estações são bem definidas - eu passei a ter uma estação preferida. O outono.

Mas outra coisa que eu amo nesse lance das quatro estações são as transições entre uma e outra. Principalmente a transição entre inverno e primavera, que está acontecendo agora. Eu não odeio o inverno como a maioria dos brasileiros (e até mesmo dos ingleses) que moram aqui, mas acho que essa época a diferença entre um dia e outro é gritante. Podemos ter 5 graus de manhã e 14 a tarde, ou um dia de muita chuva e frio seguido por um de sol, calor e céu azul. Algumas árvores continuam peladas mas outras já florescem, e outras tantas estão com os botões fechados, mas prontinhos para seguir seu ciclo.

É incrível!

Os parques floridos e os preparativos pro verão, e o pensamento focado nas muitas jarras de Pimm's e churrascos nas casas do amigos nos mantém animados. A gente erra feio na roupa (coloca sapatilha quando chove e bota forrada de lã quando faz calor), mas com sorriso no rosto mesmo assim.

A post shared by 👻 oh,snap: helorighetto (@helorighetto) on

Novos guias de passeios bate e volta


Em agosto de 2016 eu publiquei o primeiro guia da série de passeios bate e volta a partir de Londres, sobre Oxford e Cambridge. E antes do ano virar mais dois foram publicados (eu que esqueci de avisar aqui antes, mas o lançamento foi pro ar lá no Aprendiz de Viajante): um sobre Bath e outro sobre Windsor e Hampton Court.

Já falei várias vezes que Bath é minha cidade preferida na Inglaterra (e também uma das minhas preferidas no mundo, não que eu conheça tantas assim), e eu moraria lá facilmente. Por isso optei por dedicar um guia todinho só pra ela. Já Windsor e Hampton Court estão em um guia só porque tratam-se de lugares com conexão com a realeza: o Castelo de Windsor, que ainda é uma das residências oficiais da monarquia; e o Palácio de Hampton Court, por onde já passaram diversos reis e rainhas, como Henrique VIII.

A ideia é continuar adicionando destinos a essa série de guias. Todos estão disponíveis em formato ebook, e aqui no blog tem uma aba dedicada para eles (clique em Guias de Viagem aí em cima, e então você verá uma listinha, clique na ultima opção: Série Bate e Volta de Londres). Cada ebook custa R$9,90.




Cotswolds pelas lentes do Martin


UPDATE: incluí os 2 últimos dias da viagem!!!

O Martin já peedeu todas as esperanças de que eu me torne uma blogueira e rica e famosa e resolveu ele mesmo tornar-se um "influenciador digital". O menino gostou dessa história de fazer vídeos e está criando uns filminhos bem legais da nossa viagem para a região de Cotswolds, aqui na Inglaterra.

Estamos aqui desde quinta feira e vamos embora amanhã. Vejam aí se o rapaz tem talento! ; )












Brexit


Ontem a atmosfera em Londres era otimista. Vi dezenas de pessoas na rua que, como eu, usavam o adesivo 'I'm in!' colado na roupa. O mercado financeiro estava confiante na vitória do Remain, e quando a contagem dos votos começou as 10 da noite tudo parecia encaminhado a nosso favor.

Aí eu acordei hoje.



Eu acordei hoje com a notícia de que a Inglaterra e o País de Gales, lugares que eu amo tanto, não querem mais brincar de União. A Escócia e a Irlanda do Norte tentaram nos ajudar, mas não foi o suficiente. Londres também votou para ficar, mas como a gente já sabe, Londres não reflete o restante da Inglaterra.

Processar essa informação é muito difícil, Estou trocando muitas mensagens com as amigas que moram aqui, e estamos todas arrasadas. Sinto-me enganada, traída, deslocada. Eu não apenas moro aqui, mas Londres é minha renda. Eu promovo essa cidade - e todo o Reino Unido - por que eu achava que não havia no mundo um lugar melhor, mais receptivo, mais cheio de misturas.

Desde o dia 5 de dezembro de 2008, quando cheguei, me senti em casa. Tanta gente me pergunta por que eu gosto tanto daqui, e essa sempre foi a minha resposta: eu me encontrei aqui. Infelizmente, hoje não é o que eu sinto.

Essa votação vai além das burocracias de deixar a União Européia, e mexem com o coração das pessoas que escolheram viver aqui. Até podem existir outros motivos para os britânicos terem votado Leave, mas todo mundo sabe que imigração era o pilar dessa campanha. Como me sentir bem vinda? Como ficar se mais de 50% da população prefere que eu vá?



Dispenso comentários falando que estou levando isso pro lado pessoal. Esse referendo sempre foi pessoal. Sempre foi nós contra eles. E gera algo muito pior que a desvalorização da libra: gera um momento de vitória para os extremistas de direita do mundo inteiro.

O que fazer?

Estávamos caminhando tão bem para um mundo globalizado, sem fronteiras, de oportunidades iguais. Onde a gente não precisa morar no lugar onde nasceu e onde podemos conversar com pessoas que vieram do outro lado do mundo. Mas nossos líderes falham em suas tarefas, e convertem a frustração da população em medo, gerando então o nós contra eles.

O futuro aqui é incerto. Tudo que eu investi em Londres, meu tempo, meu dinheiro, meu amor, parece não valer nada. O nó na garganta vira choro ao assistir o discurso vitorioso de um político nojento, que acusa imigrantes de extorsão no sistema de benefícios e engana os britânicos com números mentirosos.

O Reino Unido está fora. A Inglaterra está isolada. O Primeiro Ministro que usou esse referendo como massa de manobra deu um tiro no pé, renunciou. Pra ele nada muda. A Escócia deve ter novo referendo para independência (e dessa vez estou do lado deles). Apesar de na prática nada mudar nos próximos meses, nós imigrantes sabemos que muita coisa mudou.

Veja o que a minha amiga Liliana, que mora aqui há mais tempo que eu, também tem a dizer sobre isso. E aqui o que a Nathalia, que é casada com um inglês e está aqui como esposa (e não como europeia) tem a acrescentar.




Referendo


Eu sou imigrante. Sou brasileira, tenho cidadania italiana, moro no Reino Unido. Sou casada com outro imigrante. Um argentino, que morou no Brasil. Eu poderia ir mais longe, falar dos meus bisavós, tataravós... sabe-se lá quantos países estão no meu DNA.

Isso já é motivo suficiente para eu seu totalmente contra a saída do Reino Unido da União Europeia. Eu sou a prova de que o mundo é melhor quando temos lado a lado pessoas que não apenas tem nacionalidades diferentes, mas também carregam tradições com as quais nós nunca teríamos contato se não fosse essa coisa maravilhosa que existe hoje em dia que é o direito de ir e vir.

O mundo é melhor quando um país pode ajudar o outro a se levantar. E assim, quem sabe, será ajudado quando estiver precisando. O mundo é melhor quando um país consegue ver potencial no coletivo, e sabe que a caminhada sozinho é muito mais difícil.

Existem dezenas de outras razões, econômicas, políticas, sociais, para que o Reino Unido permaneça na UE. Mas pra mim, é difícil de engolir que alguém acredite nesse lixo todo que é propagado por aqueles que querem o 'Brexit' (Britain + exit), e criam um medo (ah, o medo!) infundado usando imigração como base.

O Reino Unido pode ter centenas de defeitos. Cortar os laços com a UE não vai consertar nenhum deles. O nosso incrível sistema de saúde, já utilizado por mim e pelo Martin (lembrem-se, dois imigrantes!) muitas vezes, não vai melhorar. O sistema de benefícios não vai ficar mais rico. O problema de moradia não vai se resolver.

Até eu, que pouco entendo de política e não sou nem um pouco articulada para dar discurso nesse assunto, consigo enxergar isso. Cadê as grandes corporações (alô Google, Amazon, Starbucks) pagando seus impostos corretamente em vez de se aproveitarem de buracos na legislação? Que se dane né? Mais fácil culpar os imigrantes.

Quando pessoas do naipe de Donald Trump e Nigel Farage (líder do partido de extrema direita daqui) apoiam um lado, sabem o que devemos fazer? Apoiar o outro.

compartilhei essa imagem no Facebook, não sei quem é o autor original

Londres mesmo

Achei esse vídeo interessantíssimo no canal do Londonist (em inglês), que mostra as variações perimetrais (eu acho que eu inventei essa expressão, mas me parece tão correta que eu vou deixar aqui) da cidade. Onde termina Londres? Morar perto de uma estação do metrô significa que você mora em Londres? O prefixo da sua linha telefônica é 020? E isso 'conta' como morar em Londres? E o seu CEP?

Enfim, é bem legal. E só pra constar: eu moro em Londres - nosso apartamento se encaixa em todos os 'requisitos' mencionados no vídeo.

Shiteastern

Eu sou uma apaixonada pelo bairro onde moro, como já declarei diversas vezes, mas se tem uma coisa que as vezes me faz pensar em me mudar daqui é o fato de dependermos do serviço de trem da Southeastern (acho que já deu pra entender o título desse post, né?).

Sim sim sim, o transporte público em Londres é muito bom e torço pra que nunca mais eu precise ter uma carro pra ir e voltar do trabalho. Mas infelizmente a rede ferroviária não é administrada pelo TfL (Transport for London, que cuida do metrô e ônibus), e os usuários dos serviços de trem em Londres ficam a mercê do monopólio de empresas que ganham permissão para operar numa certa área do país. Isso sem contar que usar o trem custa mais caro do que o metrô, mas né, uma reclamação de cada vez, deixa essa pra lá. 

Mas, burocracias a parte, o serviço prestado pela Southeastern tem piorado nos últimos anos. Os trens atrasados e cancelados por motivos imbecis costumavam ser uma casualidade - coisa de uma ou duas vezes por mês. Aí passou a acontecer com mais frequência, até chegar no ponto em que todo dia tem algum problema. 

E os motivos.. ah, os motivos! Folhas nos trilhos (JURO), trem quebrado, falta de funcionários e por aí vai. Eles tem até a cara de pau de falar que o trem tal está atrasado devido a atrasos que aconteceram mais cedo. JURO. 

Recentemente o problema dos trens tem ganhado um pouco mais de atenção da mídia (a Southeastern não é a única a tratar seus clientes como grandes imbecis). Afinal, como pode ser que um serviço tão caro (e que todo ano fica mais caro) seja tão xexelento? Além dos atrasos e cancelamentos os trens são velhos, sujos e não tem vagões suficiente para a demanda. É um deus nos acuda.

Mas (sim sim, tem um lado positivo!) pelo menos nós pobre coitados clientes da ShitOPS Southeastern podemos lamentar até não poder mais no Twitter. O Twitter tornou-se o principal canal para todo mundo meter a boca e também se informar sobre o que tá acontecendo. E também dar risada com o perfil-paródia @Se_Tranes (o perfil oficial da Southeastern é @Se_Railway e o perfil de paródia antes era @Se_Raleway - pegou, pegou? - mas por causa de uma denúncia 'anônima' ele foi tirado do ar e voltou como @Se_Tranes).

O @Se_Tranes é o melhor consolo quando estamos lá na estação em meio ao caos. Além de zombarem da incompetência da Southeastern, eles também respondem as pessoas que reclamam pro perfil oficial. É realmente hilário. Alguns dos meus tweets preferidos:











E temos também os tweets dos amigos usuários - olha, pelo menos a Southeastern serve pra isso, une as pessoas em torno do mesmo ódio:









Eu poderia postar centenas e centenas de tweets, mas deu pra entender né? Domingo a noite, além da deprê básica da semana de trabalho que vem pela frente, a gente já pensa 'certeza que amanhã de manhã vai ter trem atrasado...'

5 lojas que existem em toda 'High Street' de Londres

Uma pequena introdução pra esclarecer o que eu quero dizer com 'High Street': não só em Londres, mas por toda Grã Bretanha, as cidades tem suas 'High Street' o que quer dizer a rua mais importante, a rua do comércio, a rua onde se concentra o 'centrinho'. Claro, Londres é gigante e não tem uma High Street apenas - mas cada bairro ou vila dentro da cidade tem a sua própria. As vezes a rua principal nem tem 'High Street' no nome, mas é aquela coisa Gilette/Lâmina, sabem? High Street virou uma expressão do dia a dia, pra falar de algo local, principalmente no quesito comércio/varejo. 

1. Junk shop
Apesar do nome nada lisonjeiro (loja de porcarias, basicamente), uma junk shop é o paraíso pra quem gosta de coisas esquisitas, cafonas e velhas. Em uma loja como essa você acha desde raposa empalhada a banco de praça caindo aos pedaços a uma peça de cerâmica dos anos 50. É um local empoeirado, bagunçado, que mais parece saído daqueles programas de televisão que mostram casas de pessoas que juntam lixo a vida toda e não conseguem jogar nada fora (hoarders, uni-vos!). Cuidado para não tropeçar na mobília ou bater a cabeça no lustre que tá cheio de teias de aranha. Ainda assim, nenhuma outra loja é tão charmosa quanto a junk shop!

2. Charity shop
Eu já falei sobre as charity shops em outros posts ao longo dos anos aqui no blog, mas recentemente nesse aqui. Basicamente, a charity shop ('loja de caridade') é um lugar onde as pessoas doam seus pertences, os quais são revendidos por preços simbólicos (coisa de £2 a £5, bem barato mesmo), e o dinheiro arrecadado vai para alguma instituição de caridade. É claro que existem charity shops e charity shops: algumas são bem ruinzinhas, onde e difícil encontrar algo que realmente valha a pena (as pessoas doam cada coisa que vocês não tem ideia). Outras são sensacionais, lugares onde vale a pena garimpar. Recomendo investigar as prateleiras de livros, que sempre tem algo interessante. Eu já comprei um relógio de mesa vintage, lindíssimo, por £10. Não estava funcionando, mas consertamos em casa mesmo, não tinha maiores problemas.

3. Casa de aposta
Pra mim, os lugares mais deprimentes de Londres são as casas de apostas. Basicamente, é possível apostar em qualquer coisa que você queira, não apenas resultados de torneios esportivos mas também assuntos aleatórios como o nome do bebê real, música que será a número 1 das paradas no Natal, quem será o ganhador de um certo reality show.... ou seja, essas lojas são máquinas de tirar dinheiro das pessoas. E a 'atmosfera' dessas casas de apostas é péssima... cheias de televisores e pessoas olhando para resultados obssessivamente. Geralmente homens, geralmente de meia idade (ou mais velhos). Infelizmente, existem muito mais casas de apostas do que pode ser considerado razoável, e como são instituições financeiras que fazem dinheiro, conseguem pontos privilegiados nos bairros.

4. Imobiliária
Dãr! Mas imobiliária existe no mundo inteiro! Claro, eu sei disso, mas achei o 'modelo' de loja das imobiliárias daqui bem diferente do que no Brasil. No Brasil, imobiliária não tem vitrine, certo? É um escritório, ninguém para na frente pra ver as ofertas: você vai la porque marcou horário, ligou antes, viu um anúncio em uma placa ou algo do tipo. Aqui, as imobiliárias tem vitrines, as casas e apartamentos disponíveis para compra ou aluguel estão em destaque em pequenas placas enfileiradas. E vira uma coisa meio viciante: você passa na frente de uma imobiliária e para pra ver os preços, como se estivesse namorando um sapato ou uma roupa! Principalmente quando visitamos um bairro novo, dá aquela vontade de saber quanto custa morar lá!

5. Vendinha
Isso não é uma exclusividade londrina, ou britânica, ou de qualquer outra região do mundo. Mas é uma coisa que eu já não via mais nas redondezas da onde eu morava em São Paulo, por isso me chamou a atenção aqui. Vendinhas de frutas, verduras e legumes que geralmente tem produtos muito mais frescos, bonitos e apetitosos do que os supermercados maiores - mas né, são mais caros. Esse tipo de loja está ficando cada vez mais raro, e ultimamente tenho tentado valorizar mais esses varejistas menores, independentes. Fora que a atmosfera é muito legal, dá mesmo aquela sensação de fazer parte da comunidade, já que o dono da loja é quem está no caixa e conhece todo mundo que mora por ali.


Para ver todos os posts da série Top 5 clique aqui

Para saber mais sobre o meu Guia de Londres clique aqui

Enquanto isso, na sala de justiça...*

A partir de hoje e por pelo menos duas semanas, meu caminho do trabalho é diferente. Quer dizer, meu trabalho é diferente. Fui convocada para ser juri (jurada?) e não tem questionamento - tem que ir, a empresa é obrigada a me liberar (existem exceções, é possível pedir para não ir, mas é preciso ter uma razão muito, mas muito válida).

Enfim, hoje foi meu primeiro dia na 'sala de justiça'. Só quando entrei lá, fiz o juramento e ouvi as acusações é que me caiu a ficha da importância desse dever.

Vou escrever mais aqui sobre isso quando acabar esse período, já que tudo é muito sigiloso e não posso comentar nada sobre o caso com ninguém fora da corte - o que não é fácil pra ninguém que não é desse mundo jurídico.

Boa sorte pra mim e pra todos os envolvidos!

(Não, eu não fico incomunicável - volto pra casa todo dia)

*Pra quem tem menos de 30 e poucos anos e não entendeu o título, ou pra quem ficou nostálgico - um lembrete:

5 coisas que eu achei esquisitas quando cheguei em Londres

1. Sempre tem alguém carregando mala
Essa eu coloquei como número um não por acaso: foi realmente a primeira coisa 'esquisita' que eu notei na cidade. Em qualquer percurso que você faça, seja a pé em uma área super turística ou usando o metrô em bairros mais afastados do centro, você sempre verá alguém carregando mala. Mala de viagem mesmo, de rodinha! Eu fiquei encucada com isso vários dias logo após minha chegada, e lembro que perguntei pra algum colega do trabalho do Martin: 'mas o que esse povo carrega?'. Num primeiro momento eu nem cheguei perto de cogitar que essa turma da realmente indo viajar ou voltando de alguma viagem, isso porque não estava acostumada a ver pessoas usando transporte público pra ir pro aeroporto/estação de trem/rodoviária. Londres é a capital do mundo (toma essa, Nova Iorque), e aqui tem muita gente de passagem, muitos aeroportos, muitas pessoas de negócios. É mala pra lá e pra cá. E claro, tem sempre o dia que é você ocupando mais espaço no metrô com as suas malas, a caminho de algum aeroporto! Aí é bem melhor : )

2. Os chicletes estampados nas calçadas
Esse mesmo colega de trabalho do Martin, quando eu perguntei das malas, me falou: 'ué, mas você não reparou nos chicletes?'. E aí eu prestei atenção e notei na quantidade absurda de chicletes pisados nas ruas e calçadas. Engraçado é que eu nunca vi ninguém cuspindo um, mas não tem um lugar que passei que não está decorado com chiclete. Inclusive até em calçadas novinhas, recém reformadas, os malditos já estão lá. Talvez isso esteja ligado com outra esquisitice londrina - a falta de lixeiras (que não coube nesse post porque tive que escolher apenas 5!)

3. Os homens de roupa social e meias coloridas
Lembro que entrei em parafuso fashion quando me mudei pra cá. Adorei que ninguém fica te medindo e as pessoas sentem-se muito mais livres para vestirem o que bem entenderem. Ninguém vai ficar te olhando se você colocar uma saia amarela com uma meia calça roxa, ou uma calça de moletom velha e furada com um salto alto. Pode testar, acredita em mim! Pois enfim, a liberdade fashion londrina pode também ser observada na turma dos engravatados, muitos dos quais não estão nem aí para a regra da 'meia social da cor da calça' (ou seria da cor do sapato?) e dão uma quebrada no look executivo usando meias coloridas e estampadas! E olha, não é um ou outro não - basta você andar pela City ou Canary Wharf na hora do rush pra ver. Eu acho super divertido, e aconselho todo mundo a se libertar das regras chatésimas de moda, seja em Londres ou em São Paulo.

4. Poder tirar dinheiro em qualquer caixa eletrônico
E o melhor: sem pagar taxa por isso! Talvez as coisas já tenham mudado no Brasil desde que me mudei pra cá (quase 7 anos!), mas lembro que era um saco ter que achar o caixa eletrônico específico do meu banco pra poder sacar dinheiro (ou então achar um 24 horas e pagar taxa....). Aqui em Londres você pode sacar no caixa eletrônico de outros bancos, e eles que se acertem. Muito mais fácil! Claro, existem caixas (principalmente dentro de bares e pubs) que lucram cobrando taxas, mas nos bancos mesmo, você não precisa se preocupar.

5. Previsão de nível de pólen
Vai fazer sol? Ou chover? E a temperatura? É o tipo de pergunta para a qual você espera uma resposta na previsão do tempo né? Pois aqui, durante a primavera e o verão, a previsão do tempo costuma incluir o nível de pólen no ar (alto/baixo/médio). Esquisito né? Isso porque aqui existe uma alergia chamada 'hayfever', que é basicamente uma alergia ao pólen. Eu nunca tinha ouvido falar disso no Brasil, e muita gente que nunca teve nenhum tipo de problema semelhante, descobre que tem hayfever quando chega aqui em plena primavera. Ah, e não é porque você passou uma primavera/verão imune que está livre para sempre: ela pode aparecer sem avisar no ano seguinte! A danada é terrível, a turma sofre com o nariz coçando, espirros, garganta doendo, olhos lacrimejantes e inchados. Eu já tive uma crise terrível de hayfever em Milão, mas ainda bem até hoje estou imune em Londres.

Se você gostou desse post, veja os demais da série Top 5 clicando aqui.

Chegou o calor - de uma vez só!

Os últimos dias tem sido quentes. Muito quentes, principalmente para os padrões londrinos (por favor me poupem de comparações do tipo 'ah mas aqui no Brasil 30 graus não é nada), já que por essas bandas a gente abandona a manga comprida quando passa de 15 graus. Deu 20 graus já tá todo mundo de saia/bermuda. Quando bate 25 graus rola churrasco em qualquer cantinho ao ar livre, e banho de sol também.

Agora meus amigos, da 30 graus e a gente desmaia.

Como eu estou de férias, fui não desmaiar na piscina pública ao ar livre mais próxima da minha casa - valeu demais a penas as 6 libras de ingresso (eu poderia ter ficado o dia todo por esse valor).


Claro que eu não fui a unica a ter essa ideia, e a piscina tava bombando. Existem vários lugares onde é possível se refrescar em Londres (leia mais aqui), mas piscinas ao ar livre não são tão comuns (ou não tem uma estrutura tão boa como essa).

Dei muita sorte de estar de férias durante essa onda de calor. O último lugar que eu queria estar hoje, vocês devem imaginar, é no escritório. Mesmo que lá tenha ar condicionado.

Como doar seus pertences em Londres

Charity Shop
As charity shops são lojas que revendem pertences - roupas, livros, brinquedos, acessórios e até móveis - por um preço muito baixo, e o valor arrecadado é doado para alguma instituição sem fins lucrativos. Diversas instituições, como o Cancer Research UK e o Save The Children possuem uma rede de charity shops, mas algumas são independentes, e revertem o valor para mais de uma instituição.

É a maneira mais prática de doar o que você não quer mais, pois existem várias, em todos os bairros. É só levar suas coisas e deixar lá - mas é claro, certifique-se de que determinada loja aceita determinado tipo de produto. Por exemplo, existem charity shops especializadas em roupas, então não adianta levar uma cadeira.

Sempre que eu levo alguma coisa na charity shop eu também dou uma olhada na oferta - temos um relógio antigo, dos anos 40, que compramos por £10!

Freecycle
Sei que o Freecycle nāo é uma exclusividade daqui, mas eu nunca tinha ouvido falar desse rede de doações antes da minha mudança pra Londres. O Freecycle é um website, que conecta pessoas das mesmas cidades e bairros, que estão doando pertences ou buscando doações.

Você deve entrar no site e buscar pelo grupo de sua cidade ou bairro, e após um rápido cadstro pode anunciar o que está doando ou procurando. Os interessados irão responder seu anúncio e você então recebe uma notificação por email. Aí é só se organizar com a pessoa e arranjar a entrega. Eu já doei, entre outras coisas, um microondas.

Dependendo do que você anuncia, vai receber um monte de emails interessados, então é bom ficar atento e fazer por ordem de chegada: se a primeira pessoa que entrou em contato acabou 'sumindo', avise a próxima, e assim por diante.

Também é legal dar uma olhada nos anúncios de coisas que as pessoas estão precisando, talvez você tenha algo em casa que nem lembra mais e pode ajudar muito! Lembrando que o Freecycle é mantido por voluntários, então se você usa os serviços, que tal considerar uma doação?

www.freecycle.org

Gumtree
O Gumtree também é um website de anúncios (mas de absolutamente tudo!), só que você pode usá-lo para vender/comprar, e não necessariamente doar. Acho que usei o Gumtree apenas uma vez, para vender um sofá, porque acho meio confuso, tem tanta coisa que é difícil achar aquela coisa específica que você está procurando. Mas enfim, é uma solução (e alternativa ao Ebay) se você precisa de uma graninha extra e quer vender alguma coisa.

www.gumtree.com

Grupos no Facebook
Existem alguns grupos de brasileiros que moram em Londres no Facebook, e em muitos deles as pessoas anunciam seus serviços ou objetos para vender/doar. Como o Facebook anda trolando tudo quanto é postagem orgânica, a sua oferta pode se perder, mas né, nunca se sabe. Sempre tem alguém que conhece alguém que está precisando de algo que você não quer ou não precisa mais.

Council
Essa é uma ótima opção se você precisa doar coisas grandes, como móveis, mas não tem como fazer o transporte. Entre em contato com o seu council (tipo sub prefeitura do seu bairro), pois eles provavelmente tem um serviço de coleta. Não adianta deixar na lixeira do seu prédio e achar que a fada da reciclagem vai pegar - é preciso avisar o council, eles tem um dia certo designado para isso.

Deixar na porta de casa
Apesar de essa não ser uma prática tão comum em Londres como é em outras cidades européias, não é difícil encontrar objetos na frente de algumas casas com clara sinalização de que estão ali pra quem quiser pegar. Pra quem mora em prédio, também dá pra deixar no hall por um tempo com um bilhete e ver se alguém pega. Já peguei uma mesa de centro no lixo de uma casa e doei uma cadeira no hall do meu prédio.

Mas claro, tenha bom senso: se ninguém pegar em 24 horas, retire o objeto e arrume outra maneira de fazer a doação.