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Por Todas Elas

Hoje é dia de protesto. Mulheres no Brasil inteiro vão pra rua mostrar que a sociedade não pode ficar calada diante de não apenas esse caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, mas também de tantos outros crimes de violência contra a mulher.

Homens que cometem esses crimes não são monstros, doentes ou psicopatas. Eles agem dessa forma porque nossa cultura patriarcal os ensina a agir assim, já que aprendem desde pequenos que mulheres são cidadãs de segunda classe.

CHEGA. procure no Facebook pelo evento 'Por Todas Elas' e sabe onde acontecerá na sua cidade.

(a imagem abaixo foi liberada pelo autor para ser usada por quem quisesse, como quisesse)



Você perpetua a cultura de estupro?


Ei, você. Responda sim ou não para as perguntas abaixo:

1. Você ja buzinou para uma mulher que estava andando na calçada?
2. Você já chamou uma mulher de gostosa seja na rua, na balada, na escola?
3. Você já tocou uma mulher (em qualquer parte do corpo) que não conhece simplesmente porque a achou bonita e gostosa?
4. Você já falou pra uma mulher que ela deveria ir lavar uma pia de louça ou que ela precisa de uma rola no meio de uma discussão?
5. Você já fez ou já riu de alguma piada machista, do tipo que fala que lugar de mulher é na cozinha, servindo homem?
6. Você já recebeu fotos de mulheres nuas através das redes sociais e não advertiu a pessoa que mandou?
7. Você já insistiu pra uma mulher te beijar mesmo depois de ela ter claramente demonstrado que não estava afim?
8. Você acha que mulher que usa roupa justa, saia curta e blusa com decote está pedindo pra ser assediada?
9. Você já deu em cima de uma mulher e quando ela disse que tinha namorado você foi lá e pediu desculpas para o namorado?
10. Você respondeu sim para alguma das perguntas anteriores?

Se sim, você tem parcela de culpa pela cultura machista e contribuiu para a cultura do estupro. Cultura do estupro, sabe? Não? É aquela coisa que faz com que os homens achem que as mulheres são inferiores, que devem se submeter a vontade deles mesmo quando não querem. Cultura de estupro é aquela coisa que deixa um grupo de 30 homens - que não são doentes, não são psicopatas - a vontade para dopar e estuprar uma mulher, e além disso publicar um vídeo do feito na internet. Cultura de estupro é a imprensa chamar a vítima de 'suposta vítima' depois que o vídeo que compra o fato ter viralizado. Cultura de estupro é o delegado botar panos quentes na situação.

Se você respondeu sim a alguma das questões anteriores, não perca tempo procurando desculpas para o seu comportamento. Apenas haja: ajude a gente a mudar tudo isso. 

Aqui, aí, em todo lugar


Essa semana eu falei no Snapchat que odeio correr sozinha. Bom, pra quem não sabe, eu e o Martin corremos juntos, mas tem dias que um de nós tem compromisso, aí embola o meio de campo e cada um precisa 'repor' a corrida perdida sozinho. Enfim, não é frequente, mas acontece.

Eu tive que correr sozinha um dia desses. Quando isso acontece, eu mudo de percurso: em vez de ficar a maior parte do tempo correndo na rua, eu fico dentro do parque. Eu faço isso pra evitar assédio. Se você é homem, vai achar essa afirmação estranha, mas se você é mulher certamente está pensando em quantas vezes você já fez isso também, mudar o caminho porque está sozinha.

Mas no curto caminho entre a minha casa e o parque, sempre tem um babaca. Dessa vez especificamente um babaca que passou de carro e gritou qualquer coisa pra mim. Gritou e continuou dirigindo sei lá pra onde, mas com certeza alguns segundos depois ele esqueceu o que fez. Talvez tenha feito de novo, talvez faça isso o tempo todo. Não importa. Seguiu em frente.

Eu segui correndo também, mas é claro que não esqueci. Botei ali no meu compartimento de assédios na rua. E chegando em casa eu fiz esse desabafo no Snapchat. Pô, tô ali fazendo meu treino, concentrada, e tem babaca que acha que eu sou entretenimento. Que saco.

Um monte de gente me respondeu se solidarizando. Mas a maioria das pessoas expressou supresa em saber que aqui em Londres isso acontece também. Pessoas que vivem no mundo todo (essa é a vantagem do Snapchat), falando que não sabiam que havia sexismo no Reino Unido.

Eu entendo que a gente tenha essa impressão que em um país europeu a gente esteja muito além de algo tão grotesco quanto sexismo. Que talvez você more em uma cidade onde não precise lidar com esse tipo de problema, e isso é maravilhoso. Muito bom mesmo. Pode sair pra correr e não se preocupar com alguém que passe de carro e buzine. Ou voltar da balada tarde da noite, sozinha, sem segurar a chave na mão.

Mas o que não podemos é fazer com que esse privilégio crie uma espécie de esquecimento. Afinal, se o machismo não te afeta, o que você tem a ver com esse problema? Eu acho que aí que mora o perigo. Quanto mais afastados estamos, menos nos importamos. Eu sei que é difícil se solidarizar com algo que acontece tão longe da sua casa, do seu entorno.

Mas, se você ficou indignado com o que aconteceu comigo nas ruas de Londres, use isso pra pesquisar o problema, investigar a fundo. Não deixe o sentimento morrer. Informe-se, converse, compartilhe informação. Use as redes sociais como aliadas nessa luta. Não se solidarize apenas comigo - eu também sou muito privilegiada, e o sexismo que eu encaro no dia a dia é apenas a ponta do iceberg - mas olhe mais longe: olhe para as mulheres que não podem fazer escolhas, que não podem dirigir, que não podem andar de bicicleta (sabia dessa?), que são violentadas e não tem para quem recorrer, que ganham menos porque são mulheres, que são assassinadas porque são mulheres.

Aí na sua cidade pode estar tudo bem. Mas e no resto do mundo?

Chega de Fiu Fiu, o documentário do Think Olga

'Se a mulher não quer que mexa com ela, então não tem que usar roupa que provoca, passa aqui de moletom'

Eu não vou nem discutir o tanto de coisa errada que tem na afirmação acima (que aliás eu não inventei. Veja o vídeo abaixo pra ouvir e ver esse e mais um monte de absurdos). Se você concorda que é um absurdo, então você precisa ajudar o documentário Chega de Fiu Fiu, idealizado pelo projeto Think Olga, a sair do papel.

(E se você não concorda, e acha que a frase faz sentido, faça um favor pra mim: feche essa página e nunca mais volte aqui)

Há alguns meses o Think Olga divulgou o resultado de uma pesquisa que mostra que as cantadas na rua não tem nada de inofensivas: é um problema grave, e que tem sido ignorado há muito tempo. Eu já falei sobre esse assunto algumas vezes aqui no blog (quando contei sobre campanhas feministas que apoio no Reino Unido, como o Everyday Sexism e o No More Page 3), então não acho que preciso explicar novamente que assédio não é paquera (e cantada É assédio).

Agora, o Think Olga quer dar um passo adiante na luta contra o sexismo e produzir um documentário que mostra as situações super desagradáveis que as mulheres passam todos os dias. Veja o vídeo abaixo para entender certinho o contexto e o projeto.



Então, vamos doar? A primeira meta, de R$20 mil, já foi alcançada. Agora precisamos chegar a R$80 mil, pra garantir que o documentário saia do papel. Temos 46 dias, e ainda falta bastante,

Quanto mais eu penso nesse assunto, lembro de mais e mais cantadas (algumas bastante agressivas) que levei na rua. Engraçado como a normalização disso faz a gente 'deixar pra lá' e esquecer coisas que na verdade são traumatizantes. Chega disso, gente!

Clique aqui para fazer sua doação.